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Estudo Temático: “O Papa Leão XIV em sua primeira Exortação Apostólica demonstra continuidade com o Pontificado do Papa Francisco compreendendo a necessidade de refletir sobre o cuidado da Igreja pelos pobres e com os pobres”

novembro 2025
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Há aproximadamente um mês, o Papa Leão XIV, promulgou sua primeira Exortação Apostólica intitulada “Dilexi te” sobre o amor para com os pobres. Como ele mesmo afirma na introdução: “(…) em continuidade com a Encíclica  ‘Dilexit nos’, o Papa Francisco, nos últimos meses da sua vida, estava a preparar uma Exortação Apostólica sobre o cuidado da Igreja pelos pobres e com os pobres, intitulada Dilexi te, imaginando Cristo a dirigir-se a cada um deles dizendo: Tens pouca força têm pouco poder, mas “Eu te amei!” (Ap 3,9)” (LEÃO XIV, 2025).

O Papa Leão XIV afirma que “(…) ao receber como herança este projeto, sinto-me feliz ao assumi-lo como meu  – acrescentando algumas reflexões – e ao apresentá-lo no início do meu pontificado, partilhando o desejo do meu amado Predecessor de que todos os cristãos possam perceber a forte ligação existente entre o amor de Cristo e o seu chamamento  à tornamo-nos próximos dos pobres”. (LEÃO XIV, 2025).

O Papa Leão XIV demonstra que o afeto pelos pobres, na perspectiva da fé cristã, não se trata de benevolência, mas sim no horizonte da Revelação, diz: “(…) o contato com quem não tem poder nem grandeza é um modo fundamental de encontro com o Senhor da história. Nos pobres, Ele tem algo a dizer-nos”. (LEÃO XIV, 2025).

Fazendo menção a São Francisco de Assis, cujo impulso dado pelo Poverello di Assisi moveu os corações de muitos fiéis e de muitos não crentes e mudou a história e ao Concílio Ecumênico Vaticano II, o qual a história do bom samaritano e foi exemplo e norma pelo qual se orientou o Concílio, afirma, o Papa: “Estou convencido de que a opção preferencial pelos pobres gera uma renovação extraordinária tanto na Igreja como na sociedade, quando somos capazes de nos libertar da autorreferrencialidade e conseguimos ouvir o seu clamor”. (LEÃO XIV, 2025).

Biblicamente podemos compreender que Deus mostra-se solícito para com as necessidades dos pobres. Diz: “Portanto, ao ouvir o clamor do pobre, somos chamados a identificar-nos com o coração de Deus, que está atento às necessidades dos seus filhos, sobretudo dos mais necessitados. Se permanêcessemos, porém, indiferentes a esse clamor, o pobre clamaria ao Senhor contra nós e isso tornar-se-ia para nós um pecado (Cf. Dt 15,9) e, deste modo, afastar-nos-íamos do próprio coração de Deus. (LEÃO XIV, 2025).

O cuidado da Igreja pelos pobres e com os pobres fundamenta-se na realidade, pois  “(…) a  condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e econômicos, e, sobretudo, a Igreja”. (LEÃO XIV, 2025).  Reconhece que a pobreza é um fenômeno multifacetado, afirma: “(…) existem muitas formas de pobreza: a daqueles que não têm meios de subsistência material, a pobreza de quem é marginalizado socialmente e não possui instrumentos para dar voz à sua dignidade e capacidades, a pobreza moral e espiritual, a pobreza cultural, aquela de quem se encontra em condições de fraqueza ou fragilidade seja pessoal seja social, a pobreza de quem não tem direitos, nem lugar, nem liberdade”. (LEÃO XIV, 2025).

O compromisso concreto em favor dos pobres e pela erradicação das causas sociais e estruturais da pobreza continuam insuficientes diante das sociedades em que vivemos pois privilegiam  linhas políticas e padrões de vida marcados por numerosas desigualdades . Ao compromisso concreto com os pobres deve se associar uma mudança de mentalidades que tenha incidências culturais. Lemos a respeito desta compreensão: “(…) Assim, num mundo onde os pobres são cada vez mais numerosos, vemos paradoxalmente crescer algumas elites ricas, que vivem numa bolha de condições demasiado confortáveis e luxuosas, quase num mundo à parte em relação às pessoas comuns. Isto significa que persiste – por vezes bem disfarçada – uma cultura que descarta os outros sem sequer se aperceber, tolerando com indiferença que milhões de pessoas morram à fome ou sobrevivam em condições indignas do ser humano”. (LEÃO XIV, 2025).

Na Exortação, o Papa Leão XIV, demonstra ainda o quanto os preconceitos ideológicos não favorecem uma verdadeira equidade entre as pessoas. Não se pode desconsiderar que mesmo reconhecendo que todos os seres humanos têm a mesma dignidade, independentemente do local de nascimento, não se podem ignorar as grandes diferenças que existem entre países e regiões, como também, no que diz respeito a própria interpretação dos dados que muitas vezes tentam convencer que a realidade dos pobres não é tão grave assim, contudo as palavras dizem uma coisa, mas as decisões e a realidade gritam outra. É o que afirma a respeito da situação das mulheres pobres: “(…) Embora em alguns países se observem mudanças importantes, a organização das sociedades em todo o mundo está longe de refletir com clareza que as mulheres têm exatamente a mesma dignidade e idênticos direitos que os homens. As palavras dizem uma coisa, mas as decisões e a realidade gritam outra, especialmente se pensarmos nas mulheres mais pobres”. (LEÃO XIV, 2025).

Outros preconceitos ideológicos dizem respeito a meritocracia e ideologias mundanas ou por orientações políticas e econômicas que levam a injustas generalizações e a conclusões enganadoras. Assim, os cristãos são orientados a “(…) observar que o exercício da caridade é desprezado ou ridicularizado, como se fosse uma fixação somente de alguns e não o núcleo incandescente da missão eclesial, faz-me pensar que é preciso ler novamente o Evangelho, para não se correr o risco de o substituir pela mentalidade mundana. Se não quisermos sair da corrente viva da Igreja que brota do Evangelho e fecunda cada momento histórico, não podemos esquecer os pobres”. (LEÃO XIV, 2025).

Na Exortação, o Papa irá descrever um itinerário histórico de atuação da Igreja, e também reconhecerá a importância do movimento popular, constituídos por leigos e conduzidos por líderes populares, colocados muitas vezes sob suspeita e até perseguidos, mas que sabem “(…) que a solidariedade consiste também em lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, de terra e de casa, a negação dos direitos sociais e laborais”. (LEÃO XIV, 2025). Os políticos e os profissionais devem ouvi-los para não correr o risco da democracia se atrofiar, diz o Papa: “(…) Se os políticos e os profissionais não os ouvirem, a democracia atrofia-se, torna-se um nominalismo, uma formalidade, perde representatividade, vai se desencantando porque deixa de fora o povo na sua luta diária pela dignidade, na construção do seu destino. O mesmo se deve dizer das instituições da Igreja”. (LEÃO XIV, 2025).

Ao mencionar a importância da Doutrina Social da Igreja como releitura da Revelação cristã nas modernas circunstâncias sociais, laborais, econômicas e culturais, reconhece o valor ímpar do Concílio Ecumênico Vaticano II, o qual, representa uma etapa fundamental no discernimento eclesial sobre os pobres, à luz da Revelação. Os pontificados que se seguiram foram em continuidade com o ensinamento conciliar, entretanto, O Papa, considera que, em particular, o Papa Francisco considerou a importância das tomadas de posição por parte das Conferências Episcopais nacionais e regionais sobre este tema. Segundo, ele: “(…) No pós-Concílio, em quase todos os países da América Latina, sentiu-se com muita força a identificação da Igreja com os pobres e a participação ativa na sua redenção. Era o próprio coração da Igreja que se movia diante de tantos pobres afligidos pelo desemprego, subemprego e salários miseráveis, obrigados a viver em condições deploráveis”. (LEÃO XIV, 2025). O próprio Papa Leão XIV diz que deve muito a este discernimento eclesial, e falando de sua própria experiência, assim se expressa: “(…) Eu mesmo, missionário no Perú, durante tantos anos, devo muito a este caminho de discernimento eclesial, que o Papa Francisco com sabedoria soube unir ao de outras Igrejas particulares, especialmente do chamado Sul Global”. (LEÃO XIV, 2025).

O Papa Leão XIV considerando o discernimento eclesial apreendido no caminho da Igreja do Sul Global, retoma dois temas deste magistério episcopal: 1) Estruturas de pecado que criam pobrezas e desigualdades extremas e 2) Os pobres como sujeitos. Diz, o Papa: “(…) Os Bispos afirmaram com veemência que a Igreja, para ser plenamente fiel à sua vocação, não deve apenas compartilhar a condição dos pobres, mas colocar-se ao lado deles e empenhar-se ativamente pela sua promoção integral. A Conferência de Puebla, diante do agravamento da miséria da América Latina, confirmou a decisão de Medellín com uma opção franca e profética a favor dos pobres e qualificou as estruturas de injustiça como “pecado social” (LEÃO XIV, 2025).

E em relação a temática dos pobres como sujeitos recorda que a Conferência de Aparecida, na qual os bispos latino-americanos explicitaram a opção preferencial pelos pobres por parte da Igreja, os quais afirmam que tal opção está intrinsecamente implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com a sua pobreza.Considerando esta definição de opção preferencial, recorda ainda o significado de sujeitos, lemos na Exortação: “(…) Ao mesmo tempo, o documento, ao aprofundar um tema já presente nas Conferências anteriores ao do Episcopado da América Latina, insiste na necessidade de considerar as comunidades marginalizadas como  sujeitos capazes de criar cultura própria, mais do que com objetos de beneficência. Isso implica que tais comunidades têm o direito de viver o Evangelho, celebrar e comunicar a fé de acordo com os valores presentes nas suas culturas” (LEÃO XIV, 2025).

Na Exortação Apostólica “Dilexe-te”o Papa Leão XIV demonstra que a opção pelos pobres exige de nós uma atenção prestada ao outro. Uma atenção amiga, uma verdadeira preocupação pela sua pessoa e, a partir dela, o desejo de procurar efetivamente o seu bem. O amor pelos pobres – seja qual for a forma dessa pobreza – é a garantia evangélica de uma Igreja fiel ao coração de Deus. Para que a Igreja não se esqueça dessa garantia evangélica de fidelidade a Deus, então, propõe novamente o modelo do bom samaritano. Diz o Papa: “(…) As palavras finais da parábola evangélica – Vai e faz tu também o mesmo (Lc 10,37) – são um mandato que o cristão deve ouvir ressoar todos os dias no seu coração”. (LEÃO XIV, 2025).

A questão dos pobres remete à essência da fé cristã. Para os cristãos, os pobres não são uma categoria sociológica, mas a própria carne de Cristo. O coração da Igreja, por natureza, é solidário com os pobres, excluídos e marginalizados, com todos aqueles que são considerados “descartáveis” pela sociedade. Em alguns movimentos ou grupos cristãos, nota-se a falta ou mesmo ausência de compromisso pelo bem comum da sociedade, em particular e, em particular, pela defesa dos mais fracos e desfavorecidos. Leão XIV compreende que há uma incoerência em relação ao entendimento da opção preferencial pelos pobres, pois “(…) A opção preferencial pelos pobres deve traduzir-se, principalmente, numa solicitude religiosa privilegiada e prioritária”. (LEÃO XIV, 2025).

Referindo-se a afirmação de que a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual, explicita o que seja esta solicitude religiosa privilegiada e prioritária. Segundo, o Papa:

Todavia, tal atenção espiritual aos pobres é posta em causa por certos preconceitos, mesmo por parte de cristãos, porque nos sentimos mais à vontade sem os pobres. Há quem continue a dizer: “O nosso dever é rezar e ensinar a verdadeira doutrina”. Mas, desvinculando este aspecto religioso da promoção integral, acrescentam que só o Governo deveria cuidar deles, ou que seria melhor deixá-los na  miséria e ensinar-lhes antes a trabalhar. Além disso, assumem-se, às vezes, critérios pseudocientíficos para dizer que a liberdade do mercado levará naturalmente à solução do problema da pobreza. Ou ainda, opta-se por uma pastoral das ditas elites, defendendo-se que, em vez de perder tempo com os pobres, é melhor cuidar dos ricos, dos poderosos e dos profissionais, para que, através deles, seja possível alcançar soluções mais eficazes. É fácil perceber a mundanidade que se esconde por trás destas opiniões: elas levam-nos  a olhar para a realidade com critérios superficiais e desprovidos de qualquer luz sobrenatural, privilegiando relações que nos tranquilizam e buscando privilégios que nos favorecem. (LEÃO XIV, 2025).

 

O Papa reitera a importância da esmola, entretanto, afirma que “(…) o auxílio mais importante para uma pessoa pobre é ajudá-la a ter um bom trabalho, para que possa ter uma vida mais condizente com a sua dignidade, desenvolvendo as suas capacidades e oferecendo o seu esforço pessoal”. (LEÃO XIV, 2025). A esmola se faz necessária enquanto “(…) continua a ser um momento necessário de contato, encontro e identificação com a condição do outro”. (LEÃO XIV, 2025).

A reflexão sobre a esmola também precisa ser feita junto ao mundo das ideias e discussões. Segundo, ele: “(…) Permanecer no mundo das ideias e das discussões, sem gestos pessoais, frequentes e sinceros, será a ruína dos nossos sonhos mais preciosos”. (LEÃO XIV, 2025). Continua: “(….) Não será a solução para a pobreza no mundo, que deve ser procurada com inteligência, tenacidade e compromisso social. Mas precisamos praticar a esmola para tocar a carne sofredora dos pobres”. (LEÃO XIV, 2025).

A Exortação Apostólica é um chamado a se tornar próximo do pobre, quer pelo trabalho, quer pelo empenho em mudar estruturas injustas, e ou, através do gesto de ajuda simples para com os mais vulneráveis, fazendo sentirem serem para eles as palavras de Jesus: Eu te amei!. (Ap. 3, 9). A partir da reflexão proposta, importante destacar, no que diz respeito ao empenho em mudar estruturas injustas, à luz evangélica da opção preferencial pelos pobres, que o cuidado pastoral não pode desconsiderar a promoção integral, e que o auxílio mais importante para uma pessoa pobre é ela ter um bom trabalho para que viva mais condizente com a sua dignidade, desenvolvendo as suas capacidades e oferecendo o seu esforço pessoal.

Neste sentido se faz importante reconhecer o valor dos movimentos populares, nos quais estão muitos leigos e lideranças, que atuam em seus territórios, e buscam o desenvolvimento humano integral. Contudo, para que as ações dos movimentos propiciem uma ação sócio-transformadora, faz-se necessário, considerar que à luz da opção preferencial pelos pobres, e segundo a DSI, que se reconheça a força da caridade que muda a realidade e é um autêntico poder histórico de transformação. (LEÃO XIV, 2025)

Na perspectiva do desenvolvimento humano integral, a caridade é a fonte da qual deve nutrir-se todo o compromisso para resolver as causas estruturais da pobreza. É necessário continuar a denunciar a “ditadura de uma economia que mata”, sabendo que enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz, pois tais desequilíbrios, provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. (LEÃO XIV, 2025).

Devemos empenharmo-nos em resolver as causas estruturais da pobreza. A falta de equidade é a raíz dos males sociais. Constata-se que, realmente, os direitos humanos não são iguais para todos. A sociedade baseada no modelo do êxito e individualista em vigor, parece que não faz sentido investir para que os lentos, os mais fracos ou menos dotados possam singrar na vida.

No esforço para que possamos em perspectiva interdisciplinar dialogar com a teologia católica, em particular, com a sua fonte provinda do magistério atual, deixemo-nos ser interpelados pela questão fundamental que coloca-nos o Papa Leão XIV diante da reflexão que oferece sobre o cuidado da Igreja pelos pobres e com os pobres. Diz o Papa:

A pergunta que reiteradamente surge é sempre a mesma: os menos dotados não são seres humanos? Os mais fracos não têm a nossa mesma dignidade? Aqueles que nasceram com menos possibilidades valem menos como seres humanos e devem limitar-se apenas a sobreviver? A resposta que damos a estas perguntas determina o valor das nossas sociedades e dela também depende o nosso futuro: ou reconquistamos a nossa dignidade moral e espiritual ou caímos numa espécie de poço de imundície. Se não pararmos a pensar as coisas a sério, continuaremos, de forma explícita ou dissimulada, a legitimar o modelo distributivo atual, no qual uma minoria se julga com o direito de consumir numa proporção que seria impossível generalizar, porque o planeta não poderia sequer conter os resíduos de tal consumo. Entre as questões estruturais que não se pode imaginar conseguir resolver a partir de cima e que exigem serem tratadas o mais rapidamente possível, conta-se a dos lugares, espaços, casas e cidades onde os pobres vivem e caminham. (LEÃO XIV).

Referências bibliográficas

LEÃO XIV, Papa. Exortação Apostólica “Dilexi-te”. Sobre o amor para com os pobres. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/apost_exhortations/documents/20251004-dilexi-te.html. Acesso em: 03 nov. 2025.

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