Diálogos Temáticos: Narrativas

Séries Especiais Observatório PUC-Campinas
Diálogos Temáticos | Volume 1 | Número 01
Profa. Dra. Stela Cristina de Godoi | Pesquisadora, Observatório PUC-Campinas
Produzido em 12/11/2024

Figura 1. Nuvem de palavras – Stela C. de Godoi (à esquerda) e Luisa Paraguai (à direita)

Fonte: Diálogo semiestruturado gravado com Luisa Paraguai, por Stela C. de Godoi, em 01 de outubro de 2024.

 

APRESENTAÇÃO

O escrito apresentado é a transcrição de um diálogo desenrolado entre as pesquisadoras Stela Cristina de Godoi, do Programa Institucional Observatório PUC-Campinas, e Luisa Paraguai, do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da mesma instituição de ensino superior.  O diálogo foi mobilizado pelo verbete “Narrativas”, em torno do qual as professoras refletiram sobre suas próprias trajetórias, pessoais e acadêmicas, evidenciando que a narrativa pode ser compreendida tanto em sua dimensão ontológica, ao acompanhar o próprio processo de humanização do ser humano, quanto em sua função metodológica, na produção e visualização de dados de pesquisa. Assim, a experiência das debatedoras com metodologias qualitativas em áreas interdisciplinares, com ênfase em pesquisas em comunicação e ciências sociais, realçou a importância e as possibilidade de emprego do relato oral e das narrativas visuais na interpretação e intervenção em realidades sociais complexas. O diálogo foi gravado em 01/10/2024, na PUC-Campinas e durou cerca de 1 hora. A conversa foi estruturada em 4 grandes tópicos: Auto Narrativa; Narrativas, Socialização e Ser social; Narrativas, Pesquisa e Tecnologias; e, por fim, Narrativas e Exemplos de Trabalhos Realizados. Dedico os agradecimentos à Luisa Paraguai que cedeu um pouco de seu tempo e gênio criativo para nosso diálogo. Boa leitura!

 

AUTO NARRATIVA

Stela Godoi: Luisa, o quê que eu imaginei para nossa conversa… Como vamos dialogar sobre narrativas, podemos começar fazendo uma auto-descrição, refletimos sobre quem somos, a partir de onde falamos. Então, vou começar e eu passo [a palavra] para você fazer uma breve apresentação sua também. Me formei na Unesp em Ciências Econômicas e no final do curso me envolvi […] com um grupo de estudos sobre História Oral e memória. [Essa experiência] acendeu uma luzinha em mim, me despertando para o campo de pesquisa em Ciências Sociais, usando metodologias qualitativas. No mestrado e no doutorado em Sociologia na Unicamp, mais especificamente na sociologia do trabalho, eu desenvolvi pesquisas trabalhando com metodologia qualitativa. Pude escutar as experiências dos operários, depois dos motoboys, depois das mulheres. Atualmente eu sou professora da Faculdade de Ciências Sociais da PUC e pesquisadora do Observatório PUC-Campinas. Estou conduzindo duas pesquisas. Uma delas é um trabalho mais teórico, sobre cuidado, bem comum, comunidades, lideranças femininas. Quero compreender o que essas lideranças pensam a respeito do Comum, quais bens precisam ser guardados, preservados. A outra, é um trabalho colaborativo com dois outros professores do Observatório, com quem estou produzindo um índice qualitativo de desenvolvimento humano integral comunitário.

Luisa Paraguai: Eu sou Luisa Angélica Paraguai Donati, mas meu codinome é Luisa Paraguai. A questão do corpo no espaço, de algum modo, [sempre] me interessou […]. Mas, ao mesmo tempo, eu sempre gostei muito de matemática e, portanto, fui fazer engenharia civil. Dentro da engenharia, eu já parti para a programação, então, eu fui trabalhar com cálculo estrutural, já pensando em algoritmos e nesse processo do cálculo mesmo. Na época eu fiz a especialização em estruturas complexas, onde essa estabilidade da estrutura é bem dinâmica por conta da forma. Então, Niemeyer era uma figura que me interessava estudar. Bom, trabalhei como engenheira, mas depois de formada, depois dos filhos e tudo, a engenharia já não dava conta. E me aventurei, depois de uma palestra, na modelagem 3D. Então, em 1990, a modelagem de software era uma forma de visualização que facilmente chegava até mim como engenheira civil, mas o resultado era para o campo da comunicação. Então, era modelar e animar 3D visando a comunicação. Na época eu fiz um curso, sou especialista em animação. Nos anos 1990, [tinham pessoas importantes nesse campo, como] Hans Donner. A partir daí, eu fui me enveredando a estudar mais, porque, como engenheira, eu não sabia nada de comunicação, nada de imagem, nada de linguagem. E fui fazer aqui na Unicamp, como aluna especial, e depois fiz mestrado e doutorado em Multimeios. Na época, então, o meu orientador estava voltando da França, onde havia uma discussão sobre o que era produzir arte para o ambiente digital. Ele já traz esse questionamento. Ele era engenheiro mecânico e fez doutorado em artes na França, na Paris 8, [seu nome é] Gilberto Braga. Então, eu [comecei a aliar] a discussão sobre imagem, com a programação html [que eu já fazia] muito facilmente. Meu mestrado já foi [dentro deste tema], o que era imagem em tempo real na internet? E, [dentro] desse tema, eu descobri um pesquisador, o Steven Mann. O quê que ele fez? Ele pegou o computador e colocou no corpo. Então, no doutorado eu fui estudar o wearables, um computador vestível. Se tivesse que dizer qual é o meu lugar, diria que é a questão do corpo, do espaço, mediado pela tecnologia. E isso que eu venho fazendo desde então. Como artista, eu passo a trabalhar com várias linguagens, mas a programação atravessando tudo isso, porque eu tenho esse meu background. [Tenho discutido] a construção de narrativas a partir da tecnologia digital, sejam elas do ponto de vista de uma imagem fixa ou de uma imagem em movimento, sejam elas no campo do objeto. Eu construí junto com uma outra equipe mecatrônica, uma traquitana, um computador vestível, em 2005. Na docência, depois de formada, o campo do design atravessou o meu olhar de uma maneira, moldando como eu olho os aspectos plásticos e estéticos de uma informação, tanto na visualidade, como também, da arquitetura da informação. Hoje eu tenho o design como uma chave muito cara para pensar essas narrativas. Então, hoje eu diria que eu trabalho com narrativa e visualização de informação. Então, eu vejo as minhas histórias contadas com o processo de visualização de dados. Agora, mais recentemente, no meu pós-doutorado, eu comecei a refletir sobre como a gente é dominado por imagem e […] eu resolvi pesquisar o olfato, como um dos sentidos dominantes para pensar essas narrativas.

 

NARRATIVAS, SOCIALIZAÇÃO E SER SOCIAL

Stela Godoi: E, com isso, eu penso que vamos entrando nesse outro elemento do nosso diálogo, que reflete sobre as narrativas e a constituição histórica do ser humano como ser social. A arte narrativa, como dizia Walter Benjamin, acompanhando todo o nosso processo de socialização e subjetivação. Essa arte de escutar e contar histórias, tem muito a ver com o ponto de vista que eu olho para a narrativa. Walter Benjamin fala que a narrativa envolve necessariamente dois grupos sociais, o mestre sedentário, aquele que permanecia nos lugares e por isso conhecia as histórias desses lugares, e os migrantes, que iam visitar outros mundos sociais, conhecer outras pessoas e voltava carregado dessas histórias para contar. [Nesse sentido], eu fico pensando que, para mim, a pesquisa com história oral é um jeito de ir em direção a outros mundos sociais. O dado não é só a informação, mas também a forma como a história é contada, os sentidos que ela tem. Isso tudo é dado também! Quando eu vou analisar esse conjunto de dados e apresentar isso, há mil possibilidades. Normalmente, o campo científico restringe um pouco essas possibilidades. Apresentar pesquisa, quase sempre se resume a fazer resumo expandido, artigo. E, eu sempre tive uma inquietude de querer usar outras linguagens, expor a pesquisa também de outros modos. [Inclusive], depois, [nós podemos] até trocar [experiências] sobre isso, sobre as diferentes formas de visualização de dados que você já utilizou. Mas enfim, suas colocações sobre o olfato me remeteram à ideia de que o bom narrador é aquele que consegue ativar nos ouvintes outros sentidos também. Se ele consegue fazer com que você imagine algo, que lhe venham imagens e cheiros à mente, [o narrador atingiu seu objetivo]. É diferente da informação, porque ela é esvaziada dessas outras sensibilidades, não é?

Luisa Paraguai: É, eu acho que é isso. (…) E um cheiro, ele é um sentido independente da visualidade. A gente tem histórias e epistemologias constituídas para regrar esses sentidos. A nossa cultura ocidental é do campo da visão, então todos os outros sentidos foram removidos, [desvalorizados]. Foi uma escolha mesmo racional, epistemológica. E o olfato é um sentido que passa pelo sistema límbico, que é o sistema da sobrevivência, o sistema não racional. Então ele escapa a [esses regramentos]. Isso é maravilhoso porque não se controla tão facilmente o sentido do olfato.

 

NARRATIVAS, PESQUISA E TECNOLOGIAS

Stela Godoi: Vamos seguir. Um tema que você tocou, que talvez pudessemos permanecer mais um pouquinho nele, é a questão nas ilusões que envolvem os métodos e técnicas, qualitativas e quantitativas, de pesquisa. De um lado, existe uma presunção de maior objetividade e neutralidade dos números, dos dados quantitativos. De outro lado, uma ilusão de maior autenticidade do relato oral, da experiência direta coletada. Me parece que [há excessos nos dois extremos dessa ideia]. Técnicas quantitativas e qualitativas podem coexistir em um mesmo programa de pesquisa, em um mesmo trabalho. Eu penso o qualitativo a partir da sociologia, a partir da História Oral, que é uma metodologia clássica na chamada Escola Paulista de Sociologia, que remete à produção intelectual de professores da USP, dos anos 1940, 1950. [Nessa perspectiva teórico-metodológica], o relato oral pode ser usado tanto para o pesquisador identificar novos campos de pesquisa, quanto para coletar dados que permitam compreender determinados fenômenos. [Essa abordagem parte da premissa de que] cada indivíduo é também membro de um grupo, então, ele transmite, ao falar sobre qualquer tema, os valores, a consciência comum ao seu grupo social. Então, ao falar sobre a sua biografia, ele está falando também sobre o seu meio social. Por exemplo, nessa pesquisa que eu estou fazendo agora, [quero entender] como as comunidades percebem o que é o bem comum, em que medida o cuidado social pode ser o mote de um novo contrato social, de uma “sociedade do cuidado”. (…) As narrativas que estou coletando ajudam a mapear as representações sociais e as percepções sociais sobre o Comum. Agora, por outro lado, é interessante, talvez em uma outra etapa da pesquisa, usar uma técnica quantitativa, com uma amostra maior, para averiguar a intensidade de uma ou outra linha de ação social.  Quer dizer, a metodologia qualitativa ajuda a compreender um fenômeno e a quantitativa ajudar a medir a frequência, a intensidade deste fenômeno. Então, acho que a combinação da técnica quantitativa e qualitativa é muito interessante.

Luisa Paraguai: Você falou sobre algo que eu acabei de abordar com uma turma sobre User Research. A grande briga com os alunos é impedi-los de fazer o Google Forms, [ao invés] deles irem conversar com as pessoas. [É preciso] saber o que elas têm para contar do cotidiano para poder pensar como é o grupo que elas pertencem, os padrões de olhar sobre o mundo e, depois disso, poder projetar. Sobre essa questão das tecnologias, eu leio muito a filosofia crítica da tecnologia, para pensar que ela não é neutra, né?! Ela é sempre atravessada por interesses, claro. […] Feenbreg fala justamente disso, que a racionalidade tecnológica não é neutra. Esse autor, apesar de sair da Escola de Frankfurt, ele é positivo […] em relação à tecnologia, [mas defende a ideia de que] enquanto a gente estiver fora do bonde, […] enquanto outros atores não participarem do processo de construção das tecnologias, elas serão hegemônicas e dominadas por interesse [particulares]. Deste modo, qual a escapatória para lidar com as tecnologias que já existe? [Eu acho que são] os artistas que usam de maneira subversiva essas tecnologias hegemônicas dadas. (…) Toda narrativa gera realidade. Então, não há só uma realidade. São várias realidades e a gente precisa estar aberto a essas outras realidades.

Stela Godoi: Sim, maravilhoso [esse debate], porque eu acho que na chamada sociedade da informação, há uma fetichização da informação, do número, do dado quantitativo, como se ele fosse inerte, neutro e fora do contexto social. Essa fetichização se dá também com as tecnologias. Acho que localizar socialmente o dado é o melhor jeito de usá-lo.

NARRATIVAS E EXEMPLOS DE TRABALHOS REALIZADOS

Stela Godoi: Enfim, nesse minutinho que nos resta, poderíamos pontuar algumas de nossas experiências acadêmicas com narrativas, destacando uma ou duas que nos parecem mais legais nesse momento. Eu queria te contar duas experiências que eu acho que foram dois usos diferentes das narrativas. Uma delas ocorreu no mestrado, em que eu trabalhei com História Oral e reconstrução de memória coletiva de metalúrgicos aposentados no ABC Paulista durante o boom da industrialização, no período do desenvolvimentismo. Naquele momento, a pesquisa narrativa me permitiu descobrir informações novas que não tinham aparecido na literatura especializada sobre o trabalho e a resistência operária. Ou seja, foi realmente só a partir das fontes orais, gravando entrevista na casa dessas pessoas, tomando um cafezinho após a entrevista, que uma nova informação surgiu, subsidiando o entendimento das estratégias de resistência ao trabalho alienado-estranhado. Inclusive, acho curioso, que essa nova informação só apareceu depois que eu tinha desligado o gravador e estava tomando um café antes de ir embora. Ali, na cozinha, meu entrevistado continuou a conversa que me permitiu descobrir que tinha uma prática difundida no meio operário, que eram os biscates. Eles chamavam de biscate, os artefatos produzidos com as sobras de tempo e material da fábrica. Eram artefatos híbridos do mundo rural com o [nascente] mundo urbano. Mas para além do objeto, tratava-se de uma prática. Entendi que o biscate era uma prática de resistência à alienação do trabalho. No momento da entrevista, esse artefato tornou-se um objeto biográfico, um testemunho da vida dele. E daí eu voltei, fiz outras entrevistas e comecei a introduzir nos meus roteiros o tema do biscate e começaram a aparecer em todas as entrevistas relatos dessa prática. Então, nesse trabalho, a pesquisa narrativa foi um modo de descobrir informações que ainda não eram conhecidas dentro dessa literatura. Em outra experiência acadêmica, a narrativa não foi coletada, mas construída por mim mesma, como um modo de apresentação de dados de uma pesquisa-ação. O trabalho foi fruto de um projeto de extensão que eu desenvolvi durante a pandemia. Eu tinha uma parceria com um CRAS aqui na Região Metropolitana de Campinas e o público-alvo do projeto era o chamado “Grupo da Melhor Idade”, do Centro de Convivência Social (CCS) de Hortolândia. Durante a pandemia esse grupo manteve suas reuniões semanais em ambiente remoto. Então, primeiro eu comecei [fazendo uma espécie de etnografia digital]. Eu entrava nessas reuniões com a população e a equipe do CRAS para observar a interação do grupo. Depois dessa primeira etapa, eu comecei a estruturar um método para a coleta de histórias de vida e reconstrução de trajetórias. Percebi logo de início que a maior parte das participantes eram mulheres que haviam migrado para Hortolândia no final do século passado. [Observei também] que a responsabilidade com o cuidado, a responsabilidade com a família, com a casa, com os filhos, era o fio narrativo de todas as trajetórias que estávamos coletando. Com os homens que conversei o relato se estruturava de modo bastante distinto. No caso deles, era o trabalho, a experiência da fábrica que traçava o fio narrativo acerca da migração. Então, notei que a própria reconstrução da memória acontece diferente para homens e para as mulheres, em função da própria divisão sexual do trabalho. Bom, [a ideia inicial] era fazer um livro a partir disso, mas depois virou um podcast. A partir das histórias coletadas, eu narrei a história dessas pessoas. Então, eu inverti a posição e virei a narradora, esse pesquisador itinerante que vai ao mundo social do outro e depois narra esses mundos. Essas narrativas viraram uma temporada inteira do podcast Sísifo e o Cuidado no qual eu vou explorando as dores e os amores envolvidos no cuidado. Tento falar não só dos percalços, mas também da potência. Eu gosto do texto de Albert Camus no qual ele fala que é preciso imaginar Sísifo feliz. Ou seja, não só Sísifo rolando a pesada pedra até o pico da montanha, mas Sísifo caminhando com calma de volta, olhando a pedra rolando lá pra baixo, pensando criticamente na vida. Então, eu fiquei tentando brincar nesses dois lugares. Entender as vulnerabilidades, as dificuldades que elas estavam narrando, mas também a potência dessas mulheres-Sísifo, durante a pandemia, costurando os fios partidos ao longo da vida.

Luisa Paraguai: Eu tenho um trabalho [que eu quero mostrar também]. Quando eu comecei a pesquisar o cheiro, o sentido do olfato, entendi que, fisiologicamente, ele também vai pelo paladar. A percepção olfativa não tem um caminho único, [ao contrário, muitas vezes é acionada pelo paladar]. Como a comida tem um lugar importante na minha vida, [essa percepção da intersecção entre o olfato e o paladar me chamou muito atenção]. Minha mãe era mineira, cozinheira. E eu gosto muito de cozinhar também. [Gosto de] fazer comida, ficar na mesa comendo por horas e horas, discutindo e conversando. Esse é um lugar muito querido para mim. E, pensando nesses objetos que você chamou de biográficos, minha mãe tinha uma coleção de colheres. Por conta do designer, eu me vi comprando colheres diferentes, porque a forma me atrai. Eram colheres que foram perdendo a funcionalidade, porque eu levo para dentro do escritório [e, ao longo do tempo], eu fui construindo uma grande coleção [de colheres]. [Além das colheres], eu tenho livro de receitas que eram da minha mãe, [inclusive] estou escrevendo agora para os meus filhos. São livros que você vai marcando, vai mudando a receita [e, neles,] a colher é uma medida. Mas, ao mesmo tempo que é uma medida, também é um objeto que implica em um modo corporal, comportamental, de bater, de misturar, de penetrar. Então, para montar uma exposição lá no Paço das Artes em São Paulo, eu fiz uma coleta de alguns cadernos de cozinha que vieram de Portugal para o Brasil, no sentido de normalizar a nossa comida, normalizar, pela colher, os nossos modos de mexer. Só que na exposição eu pus especiarias endêmicas brasileiras, em 6 ou 7 caixinhas com especiarias endêmicas, onde o público era convidado a abrir a caixinha e mexer. Era uma colher linda de madeira, onde esse mexer tem uma sonoridade e desprendia o perfume das especiarias. Então, [nessa exposição], eu juntei uma série de questionamentos. De pensar o quanto a cozinha é um lugar de memória, um lugar de acolhimento. Mas, ao mesmo tempo, é um lugar de colonização. E os livros de receitas eram todos de autores homens, apesar das mulheres serem quem cozinhavam. Então, esse foi o primeiro trabalho que saiu, e a exposição se chamou “Colheres”. O outro trabalho [que quero comentar] é mais recente. No período da pandemia, onde a minha mesa de trabalho virou meu universo e eu percebi que sou uma pessoa muito desorganizada, que arruma a mesa só a cada 6 meses, então, a mesa é acumulativa e os objetos vão da mesa para o chão, do chão eles sobem para a mesa de novo e assim vai. Eu percebi que havia uma dinâmica de uso, de interesse, até as coisas voltarem para as prateleiras, os livros, os objetos. Então, eu comecei a fotografar a minha mesa, em top down. Deste modo, a mesa [vista de cima], trouxe uma perspectiva de mapa. É uma perspectiva, a priori, científica. Essas fotografias geraram, com o uso de inteligência artificial, gradações de cinza que viraram topografias. Então, essas topografias são histórias, são as minhas narrativas do meu cotidiano. [A partir das fotografias], eu e o Paulo Costa colocamos as imagens em uma IA, porque eu queria gerar profundidade. Como [a fotografia] é bidimensional, é monoscópica, e eu precisava de uma foto que fosse de vários ângulos, [nós resolvemos esse problema técnico] com o uso de uma IA. Ela criou uma variação de cinza, mais claro é mais alto. Então, criamos topografias.

Stela Godoi: São camadas de realidades sobrepostas.

Luisa Paraguai: Na verdade, o cotidiano é palimpsesto, é camada, a gente trabalha como layer, toda a lógica de software é layer. O envelhecer é camada… Enfim, tem metáfora e mais metáforas. Então, geramos uma paisagem topográfica, a minha narrativa é uma paisagem topográfica, a partir de dados, de arquivos fotográficos.

Stela Godoi: É como fotos aéreas, de satélite, da cidade… Você fez isso no seu universo mesa, mas podemos fazer isso no universo município, não? Com isso seria possível perceber as diferentes camadas de vida social sobrepostas…

Luisa Paraguai: Isso! Eu pus que esses objetos que aparecem, somem, se acumulam, enfim, eles estão dizendo sobre como eu trabalhei, o que eu comi, o que eu bebi.

Stela Godoi: Sim, sim, que experiência maravilhosa! Eu acho que é isso, Luisa, fizemos nosso percurso dialógico. Vamos ver agora qual narrativa construímos!

 



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