COVID-19 na Região de Campinas

Equipe:

[1] Paulo Ricardo S. Oliveira (Coordenador)
[2] André Giglio Bueno
[3] Felipe Pedroso de Lima
[4] Nicholas Rodrigues Neves Le Petit Ramos

15/06/2020 Informativo Covid-19 Campinas V1|N05|Semana 24 (06/06 a 13/06)

Até o dia 13/06, o Brasil notificou 850,5 mil casos e 42,7 mil mortes pela covid-19, com 158,5 mil novos casos em relação à semana anterior – crescimento de 23% nos casos. Os números colocam o país no segundo lugar do ranking mundial da covid-19, mesmo diante da subnotificação. Com o decrescimento da taxa de número de mortes nos EUA, caso o Brasil mantenha a trajetória atual, o país se tornará o primeiro no ranking global dos países mais afetados pela pandemia. Este levantamento apresenta as estatísticas de casos e mortes por 100 mil habitantes, bem como o comportamento das curvas de contágio e óbitos para a semana iniciada em 06/06 e encerrada em 13/06 – semana epidemiológica de número 24, para as autoridades de saúde. A última parte do documento apresenta considerações sobre as questões socioeconômicas e de saúde por parte dos especialistas.

Números da Covid-19 em Campinas (DRS e Região Metropolitana)

A Tabela 1 apresenta os números de casos e óbitos, acumulados e novos, referentes à semana 24, para os Departamentos Regionais de Saúde (DRS) do estado de São Paulo, com destaque para as estatísticas da Região Metropolitana de Campinas.  

O DRS-Campinas é, ainda, o terceiro em número de casos e óbitos, atrás apenas da Grande São Paulo e da Baixada Santista. Mas, em relação ao crescimento das mortes, o DRS-Campinas ficou atrás, apenas, da Grande São Paulo.  Até o momento, são 9.718 casos e 448 mortes. A Região Metropolitana de Campinas (RMC[5]), por sua vez, notificou 6.320 casos e 256 óbitos, até o momento.


Os casos e óbitos continuam a crescer a taxas elevadas, embora decrescentes, na Região de Campinas, como mostra a Figura 1

Vale ressaltar que as taxas de crescimento dos casos, sempre em relação à semana anterior, aumentaram em ritmo menor na semana 24 – DRS-Campinas + 2.492 casos (+9,0%), RMC +1.759 casos (+21,5%), Campinas +1.078 casos (+23,7%). Infelizmente, o número de mortes cresceu a ritmo mais acelerado na RMC e no município de Campinas, embora tenha havido desaceleração no crescimento deste indicador quando se consideram todos os municípios do DRS-Campinas DRS-Campinas + 106 mortes (+13,5%), RMC + 70 mortes  (+45,8%), Campinas +47 mortes (+74%).

Como mostram as Figuras 2 e 3, o número de municípios com taxas mais altas de incidência de casos e mortes por 100 mil habitantes também aumentou consideravelmente em relação aos níveis verificados no último informativo divulgado pelo Observatório da PUC-Campinas (ver – https://observatorio.puc-campinas.edu.br/covid-19-na-regiao-de-campinas/).

Neste momento, os municípios com menores incidências de casos são Pinhalzinho e Pedreira, com 20,33 e 21,48 casos por 100 mil habitantes, respectivamente. Na outra ponta, Jundiaí, Paulínia e Campinas são os municípios com maiores números relativos de casos notificados, todos com mais de 313 casos por 100 mil habitantes. Em relação aos demais municípios paulistas, 11 dos 42 municípios do DRS-Campinas, e 5 dos 20 municípios da RMC estão  entre os 25% de maior incidência por 100 mil habitantes – corte em 181 casos por 100 mil habitantes.  Vinhedo entrou para o grupo dos 25% dos municípios com piores taxas de incidência da covid-19 no estado de SP.

A partir dos mapas e das estatísticas, os dados começam a revelar correlação considerável entre o número de casos e mortes por 100 mil habitantes – correlação de 56% para o DRS-Campinas.

Até o momento, 13 dos 42 municípios do DRS-Campinas e 5[1] dos 20 municípios da RMC não declararam mortes pela covid-19.  Na outra ponta, Jarinu e Jundiaí continuam entre os piores municípios do DRS-Campinas, com 36,9 e 25,5 mortes por 100 mil habitantes, respectivamente.

Na RMC, Indaiatuba, Campinas e Nova Odessa são, neste momento, os municípios com as piores taxas de óbito por 100 mil habitantes – 12,5, 10,70 e 10,3, respectivamente. Estes municípios estão, inclusive, no grupo dos 25% dos municípios paulistas com maiores taxas de morte a cada 100 mil habitantes. Destaca-se a escalada do município de Nova Odessa e a queda em Hortolândia, neste indicador.

Análise dos especialistas

As últimas semanas foram marcadas pela implementação das iniciativas de flexibilização das medidas de isolamento social, baseadas no anúncio da “quarentena inteligente” do estado de São Paulo. O DRS-Campinas continua na classificação “laranja”, fase 2.  Portanto, os prefeitos desses municípios puderam/podem autorizar, por meio de decretos, o funcionamento, com restrições, das imobiliárias, concessionárias, escritórios, comércio e shopping centers. No entanto, no último relatório do governo do estado, os municípios dos DRSs da Grande São Paulo e da Baixada Santista foram “promovidos” para a fase 2, enquanto outros municípios de DRSs do interior foram “rebaixados” para fases de maior restrição, como, por exemplo, Ribeirão Preto, Barretos e Presidente Prudente, que recuaram para a fase vermelha. Mais emblemáticos foram os casos de Ribeirão Preto e Barretos que estavam inicialmente na fase amarela, na qual era permitida a abertura de todas as atividades, mesmo com restrições, exceto a abertura de academias, teatros, cinemas e eventos de aglomeração.  

Os casos e mortes continuam aumentando, como mostram os dados, embora a taxas menores para incidência de casos, mesmo após duas semanas da abertura do comércio. Por outro lado, preocupa a aceleração no ritmo de crescimento das mortes. A maior parte dos municípios da RMC já implementou medidas de relaxamento do isolamento, desde o dia 1o/06/2020.  Mais especificamente, Americana, Artur Nogueira, Engenheiro Coelho, Holambra, Hortolândia, Indaiatuba, Itatiba, Jaguariúna, Monte Mor, Morungaba, Nova Odessa, Paulínia, Pedreira, Santa Barbara d’Oeste, Santo Antônio de Posse, Sumaré, Valinhos e Vinhedo permitiram a reabertura do comércio e outras atividades autorizadas pelo decreto estadual. Campinas e Cosmópolis reabriram o comércio no dia 08/06.

Do ponto de vista da saúde, observa-se, portanto, que o momento de início das reaberturas ocorre em meio a um aumento acelerado no número de casos e óbitos, e os potenciais impactos de tais medidas de flexibilização causam grande preocupação. Entretanto, para aumentar a precisão das análises acerca deste impacto, devem-se levar em conta algumas informações sobre a dinâmica da doença. Sabe-se que o período de incubação médio (período entre o contágio e o início dos sintomas) fica em torno de cinco a seis dias, podendo se estender até cerca de doze dias. O tempo entre o início dos primeiros sintomas e o aparecimento de sintomas mais graves, como a falta de ar, é de sete a dez dias. Em geral, as internações hospitalares ocorrem neste momento. Se houver necessidade de internação em terapia intensiva e ventilação mecânica, a internação pode se prolongar por mais de três semanas, podendo o desfecho ser a recuperação e alta ou o óbito. Dessa forma, indicadores como incidência de internação por covid-19 e incidência de óbitos estão sujeitos a toda essa cadeia de intervalos, de modo que os dados atuais refletem situações em que a transmissão ocorreu há cerca de duas semanas e há três ou mais semanas, respectivamente. Da mesma forma, o aumento de transmissão que se espera que ocorra com o aumento de circulação de pessoas a partir desta semana não será imediato e deverá ser percebido em duas a três semanas, podendo ainda haver alguma variação adicional na contagem de casos novos por alterações nas estratégias de testagem, com ampliação do diagnóstico de casos leves em algumas populações.

Do ponto de vista econômico e social, é importante ressaltar que o recorte no nível dos Departamentos Regionais de Saúde não condiz, necessariamente, com a dinâmica de integração econômica regional dos municípios. Neste sentido, embora o agravamento da crise econômica demande soluções estratégicas combinadas com medidas de assistência social para os mais vulneráveis, a falta de articulação entre as prefeituras que compõem os polos econômicos regionais, e outras questões que tornam os níveis de isolamento social abaixo do esperado, vão atrasar o retorno seguro às atividades econômicas. Sem articulação, decisões tomadas no âmbito municipal terão grandes impactos na contenção ou avanço da pandemia nosdemais municípios, podendo, inclusive, sobrecarregar o sistema de saúde que também funciona de forma integrada.

Sobre a atividade econômica, os indicadores já evidenciam, como esperado, queda da atividade industrial, redução dos postos de trabalho e forte queda nas importações e exportações regionais. No primeiro trimestre de 2020, alguns setores da indústria de transformação lograram crescimento ou mesmo estabilidade da produção física, o que segurou o emprego industrial regional. No entanto, os dados de abril já apontaram forte queda no emprego regional. O choque externo é considerável, revelando que as importações e exportações operam em praticamente 1/3 do volume verificado para os principais países e produtos, em relação a 2019 – ver estudos do Observatório PUC-Campinas, disponíveis em https://observatorio.puc-campinas.edu.br.

Não só o fluxo de pessoas que vão ao trabalho deveria ser considerado para a necessidade da articulação dos governos municipais, mas também o efeito que a abertura do comércio municipal, bem como de outras atividades, tem sobre os incentivos de deslocamento de pessoas que estão em municípios que mantiveram as restrições. No entanto, mesmo com a liberação das atividades, o índice de isolamento não caiu consideravelmente, e nem recuperou os níveis pré-fechamento. Algumas explicações para o fenômeno incluem, de forma não exclusiva: 1) as pessoas têm consumido em estabelecimentos mais próximos de suas residências; 2) O nível de clandestinidade era alto pré-flexibilização; 3) os consumidores ainda estão receosos quanto aos riscos da contaminação, evitando ir até os estabelecimentos comerciais.

De todo modo, os indicadores confirmam, como já ressaltavam os especialistas, que o novo normal trará desafios mais duradouros para o funcionamento das atividades econômicas.


[1] Professor extensionista e economista do Observatório PUC-Campinas, e-mail: paulo.oliveira@puc-campinas.edu.br
[2] Professor e médico infectologista  da PUC-Campinas/ Hospital e Maternidade Celso Pierro
[3] Graduando em Geografia e extensionista da PUC-Campinas (mapas)
[4] Graduando em Economia e extensionista da PUC-Campinas (curva epidemiológica)
[5] Recorte menor do Departamento Regional de Saúde de Campinas, com 19 municípios do DRS-Campinas mais Engenheiro Coelho.
[6] Dados municipais para o DRS-Campinas apresentados nos anexos.
[7] Alguns veículos de comunicação divulgaram ocorrência de mortes no município de Morungaba, mas os dados oficiais não contabilizaram tais mortes até o momento.



Prof. Dr. Paulo Ricardo da Silva Oliveira

Graduado em Ciências Econômicas e Administração com Ênfase em Comércio Exterior pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), mestre e doutor em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Sou professor extensionistas da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), onde desenvolvo um projeto de desenvolvimento e acompanhamento de indicadores da produção industrial, agrícola e da inserção internacional da Região Metropolitana de Campinas (RMC). Paralelamente, desenvolvo pesquisas nas áreas de economia internacional e industrial, mais especificamente em temas ligados aos impactos da inovação tecnológica e da regulação nos fluxos internacionais de comércio. (Fonte: Currículo Lattes)


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