Séries Especiais Observatório PUC-Campinas
Diálogos Temáticos | Volume 1 | Número 03
Profa. Dra. Camilla Marcondes Massaro | Pesquisadora, Observatório PUC-Campinas
Produzido em 23/11/2024
Figura 1. Nuvem de palavras – Camilla Marcondes Massaro (à esquerda) e Juliana Doretto (à direita)
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Fonte: Elaboradas por Camilla Marcondes Massaro a partir da gravação do diálogo.
A proposta dessa produção surgiu da confluência entre os estudos que vêm sendo realizados pelas pesquisadoras Camilla Marcondes Massaro, do Programa Institucional Observatório PUC-Campinas e Juliana Doretto, do Programa de Pós-Graduação em Educação da PUC-Campinas – a quem agradeço de forma especial – tendo como motivação a palavra Juventude(s). A conversa foi construída iniciando pelos nossos entendimentos sobre o conceito de juventude e o porquê de juventude(s) no plural; seguindo para as possibilidades de análise que essa temática traz na atualidade a partir das nossas áreas, Ciências Sociais, Comunicação e Educação, balizadas pelas contribuições derivadas das teorias, reflexões e olhares pertinentes às nossas áreas de formação e campos de atuação, bem como das pesquisas por nós desenvolvidas. Nosso diálogo aconteceu no dia 19/11/2024 e durou cerca 40 minutos.
Juliana: Essa palavrinha, no plural, juventudes, parece uma bobagem para quem nos lê, mas na verdade faz toda a diferença. Porque, quando nos nossos trabalhos, nas nossas conversas, nas nossas aulas, a gente demarca essa pluralidade, é uma forma de evidenciar a complexidade de estudar as juventudes, estudar as pessoas que vivem essa fase da vida, que faz parte de uma construção sócio-histórica e cultural. Até porque a gente sabe que historicamente essa ideia de juventude é algo muito recente. Durante muito tempo as pessoas já entravam no que hoje a gente chama de vida adulta, com atividades laborais, casamento, reprodução, filhos; não havia a ideia de juventude. A gente pode pensar inclusive no próprio século XX, a escolarização, o ensino superior e a entrada dessas pessoas nessa fase de vida escolar como um marco importante para o surgimento da ideia de juventude, além da cultura do consumo atrelado a essa fase da vida: o vestuário, a produção artístico-cultural. Então, se a gente pensar que essa fase é tão recente assim, algo que a gente conhece há cerca de um século, e que há muito pouco estudo sobre ela, é natural que as pessoas ainda pensem nessa fase de vida como algo uníssono, muito homogêneo. Porque ela surge atrelada a uma classe média, média alta. Mas, com as alterações ao longo do tempo, hoje a gente sabe que os diversos sujeitos jovens vivem essa fase da vida, mas vivem de diversas formas. E é muito interessante a gente pensar nisso num país como o nosso, tão desigual, em que você tem sujeitos que estão hoje sendo considerados jovens pela sociedade e por si próprios, mas trabalhando, criando filhos, enfrentando todos os desafios que se espera de alguém que esteja nessa fase chamada “adultidade”, enquanto outros jovens têm ainda todo um suporte material, financeiro e também psicológico de suas famílias, dos seus pais, de seus parentes. Que usufruem de um tempo de preparação para a entrada no mundo laboral.
Então, marcar o plural significa dizer: se trata de uma construção sócio-histórica, ou seja, se trata de algo inventado pela cultura. Não há nada natural aqui. Não há nenhuma marcação biológica muito visível do que é ou não é ser jovem. Ao contrário, é o modo como a sociedade enxerga os sujeitos que estão nessa fase de vida. Mas esses sujeitos vivem as suas juventudes de formas muito diferentes uns dos outros. E estudar juventude é, sobretudo, se preocupar com isso. É lógico que a gente está falando também de uma condição idealizada de juventude. Nós gostaríamos, como pesquisadoras, que todos os jovens pudessem, por exemplo, cursar, sim, uma faculdade e poder se dedicar a isso de maneira profunda, sem se dividir em tantas atividades. Tem um ideal, obviamente, nas nossas conversas, no nossos trabalhos, mas tem uma preocupação muito maior em entender o que de fato esses jovens hoje vivem, experimentam, experienciam e como eles se enxergam como jovens, como eles enxergam a sociedade que os olha dessa forma. E a minha preocupação está também sempre relacionada à própria ideia de adolescência, que é uma fase dessa juventude, que muitas vezes os estudos veem junto com a juventude, mas que aí, sim, tem outras características, inclusive uma transformação corporal, cognitiva mais intensa, mais evidente, e isso interfere também. Então, essa é a minha visão quando a gente fala dessa palavrinha Juventude(s).
Camilla: E a partir do Estatuto da Juventude o Brasil considera jovem toda pessoa entre 15 e 29 anos. E o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) diz que adolescente é toda pessoa entre 12 e 18 anos. Então essa fase dos 15 aos 18 tem a proteção legal da adolescência enquanto sujeitos em formação. E, além do que você falou, a partir das Ciências Sociais, [vemos que,] para além da idade, do recorte etário, tem outros recortes que vão aparecendo. Um é a questão da classe social, como você trouxe. Também dependendo da raça que você é marcado na sociedade, dependendo da sua identidade de gênero, da sua orientação sexual, você vai viver juventude de formas distintas. Como você vai ser visto? Qual acesso aos direitos garantidos você vai ter ou não? Como você vai ser reconhecido perante outros grupos juvenis também? Sendo incorporado ou então excluído desses grupos por conta desses marcadores. E no caso de Campinas, que é uma cidade com mais de 230.000 jovens, segundo o Censo de 2022, o que equivale à população de uma cidade média, e nós temos isso só de jovens, também depende do lugar que você mora. Você vai ter experiências juvenis muito distintas se você mora no centro, se você mora em um distrito, se você está muito afastado de onde as coisas acontecem. E a questão da educação. Como você falou, a gente sonha que a juventude possa ingressar na universidade e aproveitá-la de forma integral, mas a maior parte dos jovens não termina nem o ensino médio. Acho que esse é um grande desafio que a gente tem. Então, talvez por isso a ideia de pensar Juventude no plural, para tentar entender esse conceito multifacetado e repleto de desafios. Como você enxerga os desafios dessas juventudes?
Juliana: Acho que são inúmeros. É difícil a gente conseguir listar todos, mas talvez eu possa tentar aqui fazer um debate do maior para o menor. E já também falando um pouco sobre a minha própria pesquisa[i]. Eu converso muito com os jovens, sobre as representações midiáticas das juventudes, das adolescências. E, a partir dessa chave de leitura, eu percebo que há uma inquietação em todos eles. Eu entrevisto jovens de diferentes classes sociais — a classe é sempre o meu recorte. Às vezes eu consigo avançar um pouquinho para a questão de gênero, não em profundidade. Mas a classe, sim, importa bastante no meu olhar como pesquisadora. Nas minhas pesquisas eu ouço jovens de classes médias, médias altas e classes trabalhadora, de diferentes gêneros e diferentes lugares e territórios de moradia na cidade. Mas todos eles trazem claramente essa ideia – associada à representação midiática – de que a juventude é um período de irresponsabilidade, imaturidade, indefinição. Então, eles me contam que eles normalmente aparecem na mídia como aqueles que “dão problema, fazem coisas erradas, não estão prontos, se envolvem em acidentes, bebem além da conta, festejam mais do que deveriam. Mas, ao mesmo tempo, eles também dizem: “Ah, quando a gente faz alguma coisa muito brilhante a gente também aparece”. Então é um grupo social, uma categoria social, sujeitos que fazem parte dessa categoria, que vivem muito pressionados por uma visão dual de si próprios. E essa visão, claro, parte da sociedade: ou eles têm que ser geniais… [ou eles são o problema].
E aí hoje, diante da crise climática – e aí a gente está pensando em Greta [Thunberg], pensando que esses jovens vão salvar o mundo da própria destruição que nós adultos impingimos ao mundo –, eles ficam muito bravos quando se enxergam nesse lugar de salvar o mundo, pressionados. Eles dizem: “vocês fizeram essas bobagens e agora a gente tem que corrigir”. Então, eles de fato ficam bravos, mas ao mesmo tempo assumem esse papel: “Sim, agora eu tenho que me preocupar com isso, porque vocês não se preocuparam”, e você percebe uma pressão que eles próprios exercem em si a partir dessa pressão que vem dos outros grupos sociais.
Ou seja, eles são vistos como esses seres problemáticos, e se veem assim também. No sentido de que: “nos cobram demais; com 18 anos tenho que escolher minha profissão; tenho que ir bem no vestibular; meus pais me cobram maturidade para uma série de coisas; eu não trabalho nem estudo, mas eu já acabei o ensino médio e não tenho condições de estudar numa universidade; eu tento [conseguir] emprego e não consigo”. Ees também se veem como esses sujeitos que de fato vivem um período difícil da vida, problemático. Mas eu não os vejo atribuindo a si próprios essa responsabilização pela situação em que eles vivem. Eles têm completa consciência do período difícil que vivem, mas eles sabem que há uma série de obstáculos.
Só que o que eu mais vejo – e aí de novo tem um recorte da classe –, é a desesperança em jovens da classe trabalhadora. Essa crença de que nem vale a pena tentar a universidade: “isso não é para mim. Ali não é meu lugar. Isso não vai me adiantar de nada.” Claro que eles sonham, claro que eles têm desejos, mas às vezes me parece que eles mesmos se controlam nesse desejo, para tentar pensar em alguma coisa que seja mais viável. E esse é um cenário que você também enxerga nos [jovens] de classe média, média alta, porque o mundo em que a gente vive – uma série de autores que nos dizem isso –, esse mundo inseguro, violento, individualizado, individualista, elitizado, também atinge esses jovens. Mas há esse receio de sonhar. E eu não quero que eles sonhem desse jeito, idealizado dos adultos: “você tem de sonhar para consertar tudo”. Porque, mesmo aqueles que se colocam nessa condição de ativistas ambientais, de alguém que vai mudar o modo como a gente se relaciona com a própria Terra, eles também têm visões bastante pessimistas [sobre] até onde eles conseguem ir, o que eles podem ou não corrigir. Então é difícil para um pesquisador ouvir certas falas dos jovens, e a gente [se coloca] nesse lugar de estimulá-los, sem ao mesmo tempo tirar deles essa necessidade de ter uma conexão muito fina com o cotidiano, com o concreto. Esses cenários assim, eu acho que estão envolvidos nessa pressão social que há sobre eles, mas principalmente no modo como eles também se veem nesse mundo muito performático, um mundo que prega o sucesso individual acima do coletivo, acima do comunitário. É um sucesso muito marcado pelo mercado, pelo avanço nas suas finanças, muito marcado também por uma ideia de que o que importa é o meu sucesso. Não são desafios inexistentes no chamado mundo adulto, ou mesmo nas infâncias ou nas velhices. Isso infelizmente, tem marcado a humanidade como um todo. Mas, como esse jovem vive nesse momento [buscando] se encontrar como um sujeito no mundo em que vive, ele está buscando mais fortemente as suas marcas identitárias, esse lugar de atuação no mundo, esse ponto de vista sobre o mundo, eu sinto mais ansiedade [neles], mais sofrimento, tanto dos meus alunos quanto dos jovens que eu entrevisto. É um sofrimento de que eu compartilho também, mas algumas coisas eu já resolvi um pouquinho por conta mesmo do avanço da vida. Mas, para eles, essas questões são mais agudizadas. Então, ser jovem nesse mundo desestruturado, neoliberal, equivocado, eu acho que é mais difícil hoje. E aí todos esses marcadores dos quais a gente está falando aqui pioram: é mais difícil ser mulher, é mais difícil ser negro, é mais difícil ser indígena, é mais difícil ser empobrecido. Isso vai piorando as coisas, porque é um mundo que valoriza um padrão estético muito específico e um posicionamento social também muito específico, ligado às elites.
Camilla: E eu acho que uma [outra] dificuldade é que essa Juventude tem uma pressão extra em relação às juventudes anteriores e muito forte, que é a rapidez com que a internet traz esse padrão, essa pressão, dos exemplos ou dos modelos ou dos formadores ou “influenciadores” de opinião, que, para os jovens [dos períodos] mais analógicos, talvez fosse uma pressão que demorava mais a chegar. Era uma pressão que vinha nas revistas da banca de jornal, da [revista] Capricho e essas revistas todas, que era uma por mês, uma por semana. E a internet, o TikTok, o Instagram, eles mostram esses modelos a cada hora.
Juliana: E você tem também hoje a pressão por você estar presente, você produzir o conteúdo. A Paula Sibilia[ii] tem um livro de que eu gosto muito chamado “O show do eu”. A pressão midiática sobre nós, como você disse, é uma constante. Existe há muitas décadas, mas é claro que você, ao ler a Capricho, sabia que – quer dizer –, você construía essa ideia de que “Eu preciso beijar como a revista está me dizendo para beijar”. Então é um receituário. Tem uma série de teóricos que trabalham essas questões sobre a constituição do sujeito a partir desses modelos sociais. As “técnicas de si”, como Foucault e Rose dizem. E também as feministas trabalham muito também essas questões fortes da marcação, da construção de comportamentos e valores. E isso a mídia faz muito bem. A gente contava sobre essas nossas experiências para os amigos. A gente se cobrava: “Será que eu estou beijando como a revista me disse para beijar?” Mas hoje você tem também de, de algum modo, dizer para o outro, para todos, que você faz isso muito bem. E as redes sociais são esse canal.
E há toda uma gramática estruturada para isso. Há todo um modelo de como fazê-lo. E, nesse cenário, é importante a gente entender que isso funciona não porque as redes sociais criam esse modelo, mas porque elas se apropriam do modelo macro existente, que é construído por diversos circuitos, diversos discursos, diversos campos, de que para você ser uma pessoa de sucesso você tem que ser isso, isso, isso e isso. Quer dizer, não é o TikTok que inventa o padrão estético que você deve seguir. Isso está presente em diversas áreas: nas roupas, no cabeleireiro, no cinema, na televisão, está em vários lugares, mas também está lá [nas redes sociais]. Só que lá você também é cobrado a estar [não como você necessariamente se vê, mas] como você quer que os outros te vejam. E há todo um modelo para fazer isso. E aí é claro que é mais complicado para eles. Nas minhas aulas no jornalismo eu sempre abordo as redes sociais. E eu sempre me coloco nesse lugar, da pressão que eu sofro, do que ela me traz. Também de que ela me traz felicidade quando um ex-aluno me escreve, mostra uma coisa que fez, diz que se lembrou de mim. [Isso] é maravilhoso, e se não tivéssemos as redes ele não ia falar sobre isso. Mas eu falo também das pressões que eu sofro. E eu percebo que, quando eu falo disso, a aula sempre rende muito bem. Porque eles estão ansiosos por alguém que diga que eles estão sentindo algo que os outros também estão e às vezes nem eles falam entre si, porque a gente como adulto também não fala entre nós. Mas eu concordo com você que é muito mais complicado.
Camilla: Aqui no Observatório a gente tem uma preocupação também em olhar a partir das políticas públicas. E a pesquisa que eu estou desenvolvendo sobre juventude, ela traz um pouco essa ideia. Estou ouvindo as juventudes a partir de lideranças juvenis. Então, o primeiro desafio é buscar, mapear essas lideranças que estão pulverizadas, grupos, coletivos, movimentos: movimentos culturais, movimentos sociais, jovens de matrizes religiosas distintas – porque a religiosidade também é algo que influencia, na minha perspectiva, como ser humano, como ser jovem –, organizações da sociedade civil, movimento estudantil, tentando abarcar as várias regiões da cidade. Eu ouvi poucos jovens ainda, estou começando a pesquisa, mas uma coisa que apareceu bastante foi a necessidade de eles serem ouvidos. Então, pensarmos: Como é que a gente faz política pública sobre juventude sem ouvir as diversas formas de ser jovem na cidade? Vem muito essa ideia que você falou de: “vocês adultos fazem as políticas públicas, vocês adultos fazem as leis, vocês acabam com o mundo, acabam com o planeta, e aí vocês não decidem se nós somos o futuro do mundo ou se nós estamos estragando tudo porque a gente não estuda, não trabalha, a gente é apático, a gente não faz nada”. E a percepção de que é garantir, ou efetivar os direitos que estão legalmente garantidos no ECA, no estatuto da Juventude, na Constituição Federal. Um outro ponto dessa proposta de pesquisa é pensar também como a juventude entende a ideia de “bem comum”. Então, pensando a partir do ponto de vista de que a nossa sociedade pressiona, e impõe, por um individualismo exacerbado, como é que a gente faz para pensar numa perspectiva mais ampla, mais coletiva? Claro que entrevistar lideranças ajuda nesse sentido, porque, de uma maneira ou de outra, são jovens que já têm uma perspectiva mais coletiva, se são lideranças de um grupo, de um movimento, de uma igreja. E aí uma coisa que foi interessante foi a ideia de que, apesar de eles trazerem definições muito diferentes do que enxergam como “bem comum”, aparece muito a defesa de uma atuação coletiva, de entender que jovens, adultos e todo mundo tem que pensar no outro, tem que pensar num mundo melhor, mas respeitando as individualidades. Que tenha espaço para todos serem como são, sem serem oprimidos, sem serem mortos, sem serem violentados, torturados, presos, em prol de uma sociedade mais justa, equitativa – isso apareceu bastante, a ideia da equidade – e que as decisões sejam tomadas por todos, porque o que os adultos fizeram até o momento não resultou numa sociedade melhor. Eles dizem isso! E também, uma coisa que eu achei que foi bastante legal, enquanto lideranças, eles terem falado que eles reconhecem que as suas organizações ou movimentos ou coletivos nos quais eles atuam promovem essas ações em prol do “bem comum”, tanto para eles próprios, como grupo, como comunidade, então, ações de afeto e de cuidado uns com os outros, e também olham nessa perspectiva de comunidade, sociedade e planeta. Então, do micro ali, do meu grupo para a comunidade em que nós estamos, para o bairro, para a sociedade em geral, para Campinas e também olhando para o mundo, para o planeta. A questão da crise climática aparece, mesmo que não seja um foco do roteiro, mas eles falam sobre a necessidade de cuidar do mundo. Então acho que nessa pesquisa, assim como você falou da sua, a juventude vem pensando, trazendo e tentando se organizar em fóruns e outros aspectos.
Juliana: É curioso, porque quando a gente fala de mídia e juventude, a primeira ideia que aparece, tanto na revisão bibliográfica, quanto nas próprias falas dos jovens ouvidos, é essa anulação da voz infantil e também juvenil. E do idosos também. Tudo o que está fora da fase produtiva do ser humano é ignorado. Se você não é força de trabalho, se você não gera renda e não é consumidor – quer dizer, consumidor todo mundo é; inclusive o mercado sabe explorar isso muito bem –, mas se você não é mão de obra ativa você já vale um pouquinho menos. E isso é muito claro quando eu falo com as crianças, porque também pesquiso as crianças, mas com os adolescentes e jovens isso também é muito marcado. Vamos pensar de novo nessa concepção do que é a juventude na visão social: é um ser que está mais ou menos pronto, mais ou menos maduro, mais ou menos preparado para atuar nessa fase que de fato importa, que é a vida laboral produtiva. E se é alguém “mais ou menos”, então ele não é totalmente validado, socialmente falando. Seus discursos não são validados a partir da voz adulta, que é quem valida ou não; afinal, o mundo é adultocêntrico. Então essa voz é validada em alguns momentos e em outros não é.
Hoje, no nosso cenário, ela é validada quando esse jovem está ligado ao ativismo ambiental, justamente por essa ideia – isso desde os anos 1960 – de que a juventude será a salvação do mundo. Essa juventude que refresca, que oxigena, que traz outras ideias. Há uma certa visão do mundo adulto sobre esse ideal da juventude como renovação. Mas o que acontece [com isso]? O adulto quer se parecer jovem, a eterna preservação da pele jovem, do corpo jovem. Ou seja, uma aproximação desse mundo adulto com o jovem, mas ele [adulto] bebe desse ideal de juventude, que aparece sempre como renovação, como vigor, sem que isso torne esse jovem totalmente aceito nas outras esferas de decisão. Olha que paradoxal: o adulto quer se aproximar dele [jovem], mas isso não o faz ser aceito, porque aí vem de novo essa ideia: “você é muito jovem, você não tem experiência, você não tem maturidade, você não sabe o que isso significa, você não sabe o que isso quer dizer”. Então, é difícil para esse jovem.
Só que ao mesmo tempo – e isso é uma coisa que me preocupa muito – esse mundo individualizante também chega na ação política da juventude. Que bom que na sua pesquisa você tem visto essa preocupação com o coletivo, com o diverso, com o convívio com o diverso, com o diálogo com o diverso, porque, infelizmente, às vezes a gente vê, mesmo na luta política – e eu estou falando também do campo progressista, do campo juvenil –, uma preocupação muitas vezes com o meu grupo, com o que pertence ao meu “feudo”. E a gente entende por que as pessoas agem assim. Há toda uma história de opressão, você sabe dessa revolta que aparece, essa preocupação em defender as suas questões. Isso é importante, mas a gente nunca pode perder de vista a luta coletiva. Aí a questão da classe de novo volta, que para mim é fundamental.
Camilla: E o direito de todo mundo ser respeitado, livre. A gente vem discutindo isso em um grupo de trabalho do Observatório[iii], em relação à ideia de “comunidade” e de como nesse momento de neoliberalismo extremado, a gente tem muitas comunidades que se formam, mas se fecham e reagem de forma negativa, querendo se afastar, querendo invalidar o problema do outro, o sofrimento do outro.
Juliana: Exato, porque aí parece que se você não defende somente a sua causa, as suas questões, você está se enfraquecendo. Ou, se você permite que alguém que não faz parte do seu agrupamento social também esteja ali, parece que você está deixando de fortalecer alguém que faz parte desse grupo e que está longe. E eu me preocupo com isso, porque eu vejo isso também em alguns discursos juvenis até violentos, afastando outro jovem que é oprimido como ele, mas em outras questões. Todos os jovens são oprimidos de maneira geral, porque o mundo não é gerido por eles. Mas é claro que você tem dores mais intensas em alguns jovens do que outros. Mas dores são dores. E há dores que juntam todos eles. E isso é uma questão que eu acho que os jovens com essa manifestação política mais evidente têm de tomar conta. Ao mesmo tempo, tem uma parcela da juventude em que a preocupação com a manifestação política, com a ação política, ela é menor. Ela existe, óbvio, todo sujeito é político, mas é menor, e isso também é uma preocupação nossa, mas a gente sabe que não é uma questão só deles, é uma questão maior, coletiva.
Camilla: Acho que tem a ver muito com essa ideia da desesperança, que você trouxe: “já que eu não acredito muito que as coisas podem mudar, o que eu vou ficar fazendo?”
Juliana: E eu acho que o caminho, em todos esses casos, é, de novo, a valorização da voz da juventude. Então estamos, duas adultas, falando sobre as juventudes. E eu digo que é porque a gente ocupa um papel que eles não podem ocupar. Um jovem de 18, de 20 anos ainda não pode estar num ambiente acadêmico fazendo a leitura da sua investigação a partir de uma formação doutoral. É um campo que está restrito por outras questões. A gente tem essa preocupação sempre em trazê-los em eventos acadêmicos, trazer essa participação de outras formas. Mas a gente também tem um papel dentro desse campo, em também ser esse representante no espaço que a gente ocupa. Eu acho que é uma ação importante porque eles não podem estar, nessas configurações do campo, todo o tempo presentes. E a gente não fala por eles, mas os escuta e, com a nossa trajetória acadêmica, a gente interpreta, a gente acrescenta outras camadas, mas sem falar da juventude e não escutá-la. Falando da juventude a partir do que eles próprios dizem sobre si, e também das representações sobre a mídia, que sempre nos preocupa.
Camilla: E difunde as perspectivas deles. Vai sair em breve[iv], até dezembro, um texto para discussão a partir dessas entrevistas que eu fiz, no qual trago como que eles entendem essas questões, com o objetivo de poder divulgar para mais pessoas. E uma coisa que apareceu também – quando você estava falando eu fui lembrando – nessas conversas que eu tive, por exemplo, em relação à abertura do mercado de trabalho. Um jovem em específico disse: “Por que é que ninguém nos ouve na hora de ofertar as vagas? Aparece um monte de vaga que nenhum jovem quer. A gente quer trabalhar com mídia, a gente quer trabalhar com design, a gente quer trabalhar com criatividade. A gente não quer empacotar compra no supermercado, a gente não quer fazer trabalho trancado em escritório. Então por que é que essas vagas nunca estão disponíveis para nós, seja como estágio ou de alguma maneira”. Então, também essa dificuldade do mercado, não só de não ter emprego, de ninguém dar a oportunidade, mas também de ninguém dar a oportunidades que estejam relacionadas aos interesses desses jovens desenvolverem essas habilidades. Eu acho que isso é uma coisa interessante de pensar.
Juliana: Ou dar [vagas] apenas para jovens com determinadas características. Eu tive uma estudante, uma vez, que era negra, periférica e trabalhava numa grande agência de publicidade, e ela disse assim: “professora, eu estou lá, mas eles querem que eu seja como os outros jovens. Eu sou negra, sou periférica, e eles querem que eu tenha uma experiência de vida similar à de jovens brancos de classe alta. Então, assim, eu estou aqui porque eu estou na cota da diversidade, mas que diversidade mesmo eles querem? O que é que eles pensam?”.
A mesma coisa na educação. Eu pergunto muito para eles também sobre os modelos educacionais. E hoje, por exemplo, na rede estadual [de São Paulo], você tem o uso de tecnologia espraiado. E na semana passada mesmo eles me disseram: “ninguém perguntou para a gente. A gente não gosta, é muita tela, a gente cansa, a gente quer papel, a gente gosta de livro, a gente vai ser cobrado para escrever numa redação do Enem”. E aí eles dizem: “ninguém nos perguntou”. E em outros aspectos também. Ninguém pergunta para os jovens, a não ser quando quer que essa voz seja ouvida, que aí vem de novo, naquele ideal: aqui vocês vão atuar, porque aqui vocês refrescam, aqui vocês mudam, aqui vocês transformam. Mas é uma voz que se permite de modo direcionado: “aqui, tudo bem, tá? Aqui não. Você fica quieto, porque aqui você não tem o que dizer”.
Camilla: Dos jovens que eu escutei, ao serem questionados por quais motivos se reconhecem como jovens, todos eles falaram: “olha, pra além da questão da idade, que é um marco que a sociedade nos coloca, tem essa ideia de não temer, de poder ousar”. Talvez um vigor, um pouco nesse sentido mesmo, de vitalidade. Muitos deles trouxeram que se enxergam nesse papel, de ser esse sopro, de vamos fazer, a gente tem que fazer agora, a nossa hora é agora. E jovens de lugares diferentes, com perspectivas distintas, mas que reconhecem que estão nesse momento da vida com essa força e essa disposição.
Juliana: Enquanto isso for bom, e eles se sentirem animados em fazer, e se sentirem em condições de fazer, isso é ótimo. Só que uma linha tênue separa isso de uma pressão: “eu tenho que fazer, porque senão eu não terei…”. E aí vêm esses jovens que conversam com a gente, principalmente no ambiente universitário: “eu preciso fazer tal e tal curso, eu preciso fazer tal e tal coisa, eu preciso estagiar”. Isso aparece também quando eu escuto os adolescentes de diferentes classes sociais, inclusive, [aparecem] essas preocupações: “eu preciso fazer isso, porque depois eu vou fazer isso, depois eu vou para lá e depois…”. E aí as diferentes classes, as questões de gênero também obviamente aparecem, interferem. Esse roteiro social que é bastante rígido e há uma enorme cobrança deles para que consigam atingir o roteiro, porque, se não atinge, parece que obteve insucesso, que “deu errado”. Então, esse é um ponto.
Camilla: E acho que outro é: uma coisa é cada um, enquanto jovem, se sentir o elemento do vigor, do novo, desse sopro. Outra coisa é essa vitalidade ser apropriada pelos adultos, como você estava falando. Então, enquanto adulto vou usar isso de você, mas não vou te dar o direito de dar sequência às suas ideias. Me aproprio dela, e eles percebem que isso é bastante injusto. Para fechar, eu lembrei de um documentário que se chama “Pro dia nascer feliz”[v], que mostra jovens em diversos lugares do Brasil, de diversas classes sociais, escolas públicas e particulares, e todas as pressões que envolvem esse momento da vida. As meninas de classe mais alta, de um colégio mais de elite de São Paulo: “Ai, porque eu tenho balé, natação, eu preciso estudar para o vestibular, porque eu preciso passar numa universidade reconhecida…” e a questão da saúde mental aparece muito. “Ah, e aí eu tenho crises de ansiedade, eu choro, fiquei doente, estou com depressão, não consigo estudar”. E, por outro lado, os jovens das camadas mais empobrecidas: “Ah, eu tenho que trabalhar o dia inteiro, então eu tenho que ir para o curso noturno, eu engravidei e tive que parar de estudar e agora se a escola não deixar eu levar a criança, não consigo terminar os estudos.” Até que aparece a menina da periferia que faz poesia e o professor ou a professora acha que não foi ela que escreveu e duvida: “mas como você que tem uma vida tão difícil, tão sofrida, consegue escrever assim?”. Não lembro se era uma poesia ou uma redação, e ela fica super triste. São muitas nuances em cada região, em cada lugar, enfim, muitas juventude.
[i]Doretto, Juliana. “Não levo a sério”: jovens de classe trabalhadora e as representações da adolescência no jornalismo. Contracampo (UFF), v. 42, p. 1-14, 2023. A3.
[ii] Sibila, Paula. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
[iii] Referência ao grupo de trabalho que vem desenvolvendo a metodologia para a construção de um Índice de Desenvolvimento Humano Integral nas Comunidades, o IDHI-C.
[iv]Massaro, Camilla Marcondes. Juventudes, sociedade e bem comum em Campinas/SP – reflexões pelo olhar de lideranças juvenis. Interconexões (Campinas), v1, p. 1-20, 2024.
[v] Pro Dia Nascer Feliz. Documentário. Direção: João Jardim. Rio de Janeiro: Globo Filmes, 2005. (88 min.).

