Nota Técnica: Impactos Potenciais das Tarifas dos EUA na Região Metropolitana de Campinas

Nota Técnica Observatório PUC-Campinas, 20/08/2025

Impactos Potenciais das Tarifas

dos EUA na Região Metropolitana

de Campinas

Responsável Técnico:
Prof. Dr. Paulo Ricardo S. Oliveira
Economista, Doutor em Desenvolvimento Econômico
Pesquisador do Programa Institucional Observatório PUC-Campinas
Contato: paulo.oliveira@puc-campinas.edu.br

Destaques

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  • Entre agosto de 2024 e julho de 2025, a RMC exportou US$ 837 milhões para os EUA e importou US$ 2,58 bilhões, com déficit de US$ 1,7 bilhão.
  • Mais da metade das exportações (US$ 493,9 milhões) está integralmente sujeita à tarifa de 50%. Dentre os produtos estão, preparações e conservas de carne (NCM 1602), medicamentos em doses para uso terapêutico e profilático (NCM 3004), máquinas autopropulsadas de terraplanagem (NCM 8429), dentre outros.
  • Existem setores altamente dependentes dos mercados estado-unidenses, como aço inoxidável em formas primárias e semimanufaturados (NCM 7218), ácidos policarboxílicos e derivados (NCM2917), máquinas e aparelhos para papel e cartão (NCM 8441), dentre outros.

Introdução

O dia 1º de fevereiro marcou o início de uma série de medidas protecionistas adotadas pelos Estados Unidos, quando o presidente Donald Trump anunciou tarifas comerciais de 10% sobre produtos chineses e de 25% sobre mercadorias originárias do México e do Canadá. A partir desse momento, os Estados Unidos passaram a impor tarifas que variaram entre 10% e 50% sobre diversos parceiros comerciais, afetando, em alguns casos, grupos específicos de produtos, como aço e alumínio. Em 10 de fevereiro, por exemplo, foi anunciada uma tarifa de 25% sobre a importação desses dois insumos, com entrada em vigor prevista para o mês seguinte.

No dia 2 de abril, uma nova medida ampliou ainda mais o escopo das tarifas: todas as importações passaram a ser tarifadas em 10%, com exceção das provenientes do México e do Canadá. Em relação à China, as tarifas chegaram a 145% em determinados produtos, embora posteriormente tenham sido revistas e moderadas por meio de negociações bilaterais.

Mais recentemente, em 6 de julho, o governo norte-americano chegou a anunciar que países que se alinhassem aos BRICS sofreriam uma tarifa adicional de 10% sobre os produtos exportados para os Estados Unidos. Três dias depois, em 9 de julho, o presidente Donald Trump enviou uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva informando que as exportações brasileiras aos EUA seriam tarifadas em 50% a partir de agosto, justificando a decisão, entre outros motivos políticos, a supostos déficits comerciais que os EUA teriam com a economia brasileira – sabe-se que o saldo é, na verdade, equilibrado com predominância de superávits para os EUA. Ao longo daquela semana, mais de 20 cartas semelhantes foram encaminhadas a chefes de Estado, com tarifas variando entre 35% e 50%.

Em 30 de julho, Trump assinou, de fato, um decreto oficializando a tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros. No entanto, uma lista com 694 produtos foi isentada da medida. Para os demais, o início da cobrança tarifária foi fixado para 6 de agosto.

Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, tanto nas exportações quanto nas importações. Em 2024, o Brasil exportou US$ 40,4 bilhões aos EUA e importou US$ 40,7 bilhões, gerando um déficit comercial de US$ 283,8 milhões para o Brasil. A pauta comercial também é relativamente equilibrada em termos qualitativos. Entre os principais itens exportados ao mercado norte-americano estão aeronaves e suas partes, que representaram cerca de 6,7% das exportações brasileiras para os EUA em 2024. Por outro lado, o Brasil importou principalmente motores e máquinas não elétricos (exceto motores de pistão e geradores), que responderam por 15,7% do total importado.

Espera-se que o impacto global e direto de tais medidas sobre a economia brasileira seja relativamente pequeno. Em julho de 2025, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) projetou o crescimento de 2,4% para 2025, e 1,8% para 2026. Após a divulgação da lista de exceções, o Departamento de Economia da Fiesp (Depecon), projetou perda de crescimento em 0,20 p.p. no ano, 0,38 p.p. em 2026 (Depecon/Fiesp, 2025).

Diante desse cenário, surgem questões fundamentais sobre a economia regional: como avaliar os impactos regionais das tarifas comerciais? Quais grupos de produtos devem ser mais afetados na escala local?

Esta nota técnica tem como objetivo responder, de forma preliminar, a essas questões ao indicar a direção e a magnitude dos impactos das novas tarifas sobre as exportações da Região Metropolitana de Campinas (RMC).

Comércio Bilateral

Nesta nota, utiliza-se dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX/MDIC), divulgados mensalmente, para avaliar o comércio bilateral entre a Região Metropolitana de Campinas e os Estados Unidos. Esses dados são organizados segundo a Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), sistema de classificação de mercadorias utilizado no comércio exterior e estruturado em códigos de até oito dígitos. Os quatro primeiros dígitos correspondem à “posição” e identificam uma categoria mais ampla de produtos; os dois dígitos seguintes detalham subcategorias; e os dois últimos trazem especificações adicionais. O NCM é compatível com o Sistema Harmonizado (HS, Harmonized System), adotado internacionalmente, e equivalente ao sistema de classificação tarifária dos Estados Unidos, o que permite comparações diretas entre as pautas comerciais dos dois países. No caso do comércio municipal, as estatísticas são divulgadas apenas no nível de quatro dígitos, ou seja, na “posição” — que, neste estudo, será tratada como sinônimo de “grupo de produtos” para facilitar a compreensão dos principais resultados. Por essa razão, toda a análise desta nota técnica utiliza essa classificação mais agregada.

Os dados oficiais mostram que entre agosto de 2024 e julho de 2025, a Região Metropolitana de Campinas (RMC) exportou US$ 837,27 milhões em produtos para os Estados Unidos e importou US$ 2,58 bilhões, resultando em um déficit comercial de aproximadamente US$ 1,7 bilhão. Esse saldo negativo é recorrente ao longo do tempo, como evidencia o Gráfico 1, que apresenta o comércio bilateral anual da RMC com os Estados Unidos entre 2014 e 2025, acumulado em períodos de 12 meses (agosto a julho). Esse recorte temporal foi utilizado para incluir os dados mais recentes divulgados em agosto/2025.

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Fonte: Elaboração própria partir de dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) e Observatório de Complexidade Econômica (OCE).

A série histórica mostra que, há pelo menos uma década, as importações superam de forma expressiva as exportações regionais no comércio bilateral com os Estados Unidos. No período mais recente (ago/2024–julho/2025), houve queda de 3,8% nas exportações, enquanto as importações cresceram 26,2%, ampliando o déficit bilateral estrutural. Nesse contexto, medidas retaliatórias que elevem o custo de insumos e produtos importados tendem a ser mais prejudiciais a economia regional, do ponto de vista do valor transacionado, do que tarifas impostas sobre as exportações.

Nos últimos 12 meses, os principais grupos de produtos exportados pela RMC para os Estados Unidos foram:

  • Outras preparações e conservas de carne e peixe (13,5%, NCM 1602)
  • Petróleo (9,8%, NCM 2710)
  • Pneus de borracha (7,2%, NCM 4011)

O Gráfico 2 apresenta a participação relativa desses itens e a distribuição da complexidade das exportações regionais para os EUA.

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Fonte: Elaboração própria partir de dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) e Observatório de Complexidade Econômica (OCE).

Embora parte dos principais produtos exportados se enquadre nas categorias de baixa ou média-baixa complexidade, no geral, a pauta de exportação bilateral é diversificada. As exportações incluem, sobretudo, bens de média-alta e alta complexidade tecnológica, como pode ser visto no Gráfico 2. No total, considerando-se a NCM a quatro dígitos, a região exporta produtos de 779 posições diferentes para os Estados Unidos.

Do lado das importações, a pauta também é fortemente composta por produtos de média-alta e alta complexidade, conforme ilustrado no Gráfico 3. A principal posição importada, ou seja, o principal grupo de produtos, corresponde a defensivos agrícolas (26,1%, NCM 3808). A RMC importa dos EUA produtos de 678 posições (NMC 4 dígitos).

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Fonte: Elaboração própria partir de dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) e Observatório de Complexidade Econômica (OCE).

Uma vez conhecidas a magnitude e a composição do comércio bilateral regional com os EUA, pode-se, a partir da lista de exceções tarifárias, inferir quais são os grupos de produtos mais expostos ao tarifaço de Donald Trump.

Produtos de Maior Exposição

Como já mencionado, por limitações de dados, esta análise considera a classificação NCM no nível de 4 dígitos. Essa agregação reduz a precisão para identificar quais produtos estão de fato isentos das tarifas impostas. Isto porque, dentro de uma mesma posição tarifária, podem existir códigos mais específicos, no nível de 6 dígitos, que aparecem na lista de exceções divulgada pela Casa Branca, enquanto outros permanecem sujeitos à taxação. O caso do produto 4011.30.00, referente a pneus novos de borracha utilizados em aeronaves, é ilustrativo: trata-se de um item incluído na lista de exceções, mas, na prática, as estatísticas regionais permitem identificar apenas a posição 4011, que reúne todos os pneus novos de borracha. Assim, apenas uma parte do grupo pode ser beneficiada pela lista de exceções, enquanto os demais itens da mesma posição permanecem expostos às tarifas.

Os efeitos potenciais das tarifas sobre as exportações podem ser avaliados sob duas perspectivas complementares:

  1. Grupos de maior peso na pauta exportadora: identificar os principais grupos de produtos exportados e verificar quais estão (ou não) abrangidos por isenções. Nesse caso, produtos de alto valor exportado e não isentos são os que tendem a gerar impactos mais significativos para a economia regional.
  2. Setores altamente especializados nos EUA: analisar os grupos cujas exportações são fortemente dependente do mercado norte-americano. Ainda que os valores exportados sejam menores, do ponto de vista do total exportado pela região, a dependência de um único destino torna esses setores particularmente vulneráveis, sobretudo se não houver amplo mercado interno ou capacidade de rápida diversificação para outros destinos.

É importante observar que esta nota não aborda os possíveis efeitos de eventuais medidas retaliatórias sobre as importações de produtos norte-americanos. Isto porque, até o momento, o Brasil não implementou nem anunciou políticas tarifárias com esse caráter. Ainda assim, cabe ressaltar que a adoção de medidas desse tipo poderia resultar em prejuízos ainda mais severos para a economia regional do que aqueles decorrentes das tarifas sobre exportações.

Com base na lista de exceções, podem ser identificadas três situações distintas entre os grupos de produtos exportados. Em alguns casos, a isenção é exclusiva para itens vinculados ao setor aeronáutico, restringindo o benefício apenas a produtos destinados a este setor. Em outros, a isenção se aplica a parte dos produtos da posição, sem vinculação obrigatória à aviação. Nestes dois casos, o número de produtos e valor das exportações que estaria isento não pode ser calculado com precisão. Por fim, há grupos em que nenhum produto está isento, o que implica exposição integral à tarifa de 50% — neste caso é possível estimar com precisão o valor exportado que está sujeito a tarifação.

A Tabela 1 reúne os 15 principais grupos de produtos com isenções exclusivas para setor aeronátucio[1]. No total, 73 posições da pauta exportadora da RMC aparecem nessa condição. As exportações desses grupos somaram 277,39 milhões de dólares nos últimos 12 meses, valor equivalente a 33,13% do total exportado para os Estados Unidos.

Tabela 1 – Principais grupos com isenções exclusivas para o setor aeronáutico (12 meses, agosto/24 a julho/25)

NCM – 4 dígitos Descrição Valor Exportado (Milhões de USD) % das Exportações totais
4011 Pneumáticos novos, de borracha 61,28 10,17
4012 Pneumáticos recauchutados ou usados, de borracha; protectores, bandas de rodagem para pneumáticos e flaps, de borracha 48,69 81,87
8501 Motores e geradores, elétricos, exceto os grupos electrogéneos 27,47 24,48
8421 Centrifugadores, incluídos os secadores centrífugos, aparelhos para filtrar ou depurar líquidos ou gases 23,56 9,76
8409 Partes reconhecíveis como exclusiva ou principalmente destinadas aos motores das posições 8407 ou 8408 20,19 3,84
8483 Veios (árvores) de transmissão [incluídas as árvores de cames (excênticos) e cambotas (virabrequins)] e manivelas; chumaceiras (mancais) e bronzes; engrenagens e rodas de fricção; eixos de esferas ou de roletes; redutores, multiplicadores, caixas de trans 18,50 5,16
8414 Bombas de ar ou de vácuo, compressores de ar ou de outros gases e ventiladores; exaustores (coifas aspirantes) para extracção ou reciclagem, com ventilador incorporado, mesmo filtrantes 11,46 5,5
9403 Outros móveis e suas partes 8,53 10,07
9032 Instrumentos e aparelhos para regulação ou controlo, automáticos 6,23 5,48
8413 Bombas para líquidos, mesmo com dispositivo medidor; elevadores de líquidos 5,73 2,54
8511 Aparelhos e dispositivos elétricos de ignição ou de arranque para motores de ignição por faísca ou por compressão (por exemplo, magnetos, dínamos-magnetos, bobinas de ignição, velas de ignição ou de aquecimento, motores de arranque); geradores (dínamos e 4,62 3,24
8471 Máquinas automáticas para processamento de dados e suas unidades; leitores magnéticos ou ópticos, máquinas para registar dados em suporte sob forma codificada, e máquinas para processamento desses dados, não especificadas nem compreendidas em outras posiç 3,64 2,5
3926 Outras obras de plástico e obras de outras matérias das posições 3901 a 3914 2,91 2,51
8807 Partes dos aparelhos das posições 88.01, 88.02 ou 88.06 2,74 0,56
8517 Aparelhos elétricos para telefonia ou telegrafia por fios, incluídos os aparelhos telefónicos por fio combinados com auscultadores sem fio e os aparelhos de telecomunicação por corrente portadora ou de telecomunicação digital; videofones 2,50 1,08
Demais posições 29,34
Total 277,39

Fonte: Elaboração própria partir de dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) e Observatório de Complexidade Econômica (OCE).

Entre os destaques, da Tabela 1, estão produtos pertencentes aos capítulos 40, 84 e 85 do NCM, ou seja, produtos importantes na pauta regional, mas a isenção incide apenas sobre os itens destinados ao setor aeronáutico. Vale ressaltar que alguns grupos apresentam forte dependência em relação ao mercado norte-americano, como no caso dos pneus recauchutados (NCM 4012), em que 81,87% das exportações foram direcionadas aos EUA, e dos motores e geradores elétricos (NCM 8501), cuja participação foi de 24,48%. Essa elevada especialização amplia a relevância das exceções, ainda que sua efetividade seja limitada a produtos destinados ao setor aeronáutico.

A Tabela 2 apresenta os grupos que possuem isenções não restritas à aviação. Nesse caso, a abrangência é significativamente menor, já que apenas 14 posições se enquadram nessa condição. As exportações dessa categoria somaram 85,83 milhões de dólares nos últimos 12 meses, equivalentes a apenas 10,25% do total exportado para os Estados Unidos. Esse resultado demonstra o baixo potencial atenuador das exceções fora do setor aeronáutico.

Tabela 2 – Principais grupos com isenções (12 meses, agosto/24 a julho/25)

NCM – 4 dígitos Descrição Valor Exportado (Milhões de USD) % das Exportações totais
2710 Óleos de petróleo ou de minerais betuminosos, exceto óleos brutos; preparações não especificadas nem compreendidas noutras posições, contendo, em peso, 70 % ou mais de óleos de petróleo ou de minerais betuminosos, os quais devem constituir o seu elemento 83,35 2,09
2009 Sumos de frutas (incluídos os mostos de uvas) ou de produtos hortícolas, não fermentados, sem adição de álcool, com ou sem adição de açúcar ou de outros edulcorantes 1,54 0,04
3105 Adubos (fertilizantes) minerais ou químicos, contendo dois ou três dos seguintes elementos fertilizantes: azoto (nitrogénio), fósforo e potássio; outros adubos (fertilizantes); produtos do presente capítulo apresentados em tabletes ou formas semelhantes, 0,33 1,70
6802 Pedras de cantaria ou de construção (exceto de ardósia) trabalhadas e obras destas pedras, exceto as da posição 6801; cubos, pastilhas e artigos semelhantes, para mosaicos, de pedra natural (incluída a ardósia), mesmo com suporte; grânulos, fragmentos e 0,32 10,93
2713 Coque de petróleo, betume de petróleo e outros resíduos dos óleos de petróleo ou de minerais betuminosos 0,20 0,08
2008 Frutas e outras partes comestíveis de plantas, preparadas ou conservadas de outro modo, com ou sem adição de açúcar ou de outros edulcorantes ou de álcool, não especificadas nem compreendidas noutras posições 0,05 0,08
2818 Corindo artificial, quimicamente definido ou não; óxido de alumínio; hidróxido de alumínio 0,02 0,03
2804 Hidrogénio, gases raros e outros elementos não metálicos 0,01 0,02
2715 Misturas betuminosas à base de asfalto ou de betume naturais, de betume de petróleo, de alcatrão mineral ou de breu de alcatrão mineral (por exemplo, mástiques betuminosos e cut-backs) 0,00 0,46
5607 Cordéis, cordas e cabos, entrançados ou não, mesmo impregnados, revestidos, recobertos ou embainhados de borracha ou de plástico 0,00 0,07
Demais Produtos 0,09
Total 85,83

Fonte: Elaboração própria partir de dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) e Observatório de Complexidade Econômica (OCE).

Nota-se que, diferentemente do observado nos grupos anteriores, não se verificam setores altamente especializados no mercado norte-americano. A maior participação relativa é observada no grupo de pedras de cantaria ou de construção (6802), em que 10,93% das exportações tiveram como destino os Estados Unidos, percentual insuficiente para caracterizar uma dependência significativa.

A Tabela 3 evidencia os grupos sem qualquer tipo de isenção. Trata-se da situação mais preocupante, pois abrange 428 posições tarifárias, todas expostas integralmente à tarifa de 50%. O total de produtos dessa categoria, isto é, exposição integral, somaram 493,93 milhões de dólares em exportações no período, correspondendo a 59% do total enviado pela região ao mercado norte-americano.

Tabela 3 – Principais grupos sem isenções (12 meses, agosto/24 a julho/25)

NCM – 4 dígitos Descrição Valor Exportado (Milhões de USD) % das Exportações totais
1602 Outras preparações e conservas de carne, miudezas ou sangue 115,09 19,96
3004 Medicamentos (exceto os produtos das posições 3002, 3005 ou 3006) constituídos por produtos misturados ou não misturados, preparados para fins terapêuticos ou profilácticos, apresentados em doses (incluindo os destinados a serem administrados por via sub 52,10 9,11
8429 Bulldozers, angledozers, niveladoras, raspo-transportadoras (scrapers), pás mecânicas, escavadoras, carregadoras e pás carregadoras, compactadores e rolos ou cilindros compressores, autopropulsores 46,70 2,33
8503 Partes reconhecíveis como destinadas às máquinas das posições 8501 ou 8502 24,28 40,32
7228 Barras e perfis, de outras ligas de aço; barras ocas para perfuração, de ligas de aço ou de aço não ligado 20,94 29,64
8708 Partes e acessórios dos veículos automóveis das posições 8701 a 8705 15,81 1,19
2905 Álcoois acíclicos e seus derivados halogenados, sulfonados, nitrados ou nitrosados 9,52 12,06
2941 Antibióticos 9,35 15,01
1108 Amidos e féculas; inulina 9,02 41,07
2917 Ácidos policarboxílicos, seus anidridos, halogenetos, peróxidos e peroxiácidos; seus derivados halogenados, sulfonados, nitrados ou nitrosados 7,68 49,79
Demais Produtos 183,40
Total 493,93

Fonte: Elaboração própria partir de dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) e Observatório de Complexidade Econômica (OCE).

O destaque, com base na magnitude do valor exportado, é o grupo das preparações de carne (1602), com 115,09 milhões de dólares, seguido pelos medicamentos (3004), com 52,10 milhões de dólares. Ainda mais preocupante, entretanto, é o fato de que alguns desses grupos são altamente especializados nas exportações para os Estados Unidos, como as partes de máquinas (8503), com 40,32% do total exportado para o país, as barras de aço (7228), com 29,64%, os amidos e féculas (1108), com 41,07%, e os ácidos policarboxílicos (2917), com 49,79%.

Por fim, da perspectiva da especialização em mercados norte-americanos, há setores que apresentam elevada especialização e, por isso, se mostram altamente expostos as tarifas. A Tabela 4, derivada da anterior, reúne os casos de maior especialização, definidos como aqueles em que mais de 35% das exportações foram destinadas aos Estados Unidos e que exportaram pelo menos um milhão de dólares no período de 12 meses. Os produtos selecionados representaram 7,87% das exportações totais da região para os Estados Unidos.

Tabela 3 – Principais grupos sem isenções e com alta especialização nos mercados estado-unidenses (12 meses, agosto/24 a julho/25)

NCM – 4 dígitos Descricao Valor Exportado (Milhões de Dólares) % das Exportações totais
7218 Aço inoxidável, em lingotes ou outras formas primárias; produtos semimanufacturados de aço inoxidável 1,38 71,02
2917 Ácidos policarboxílicos, seus anidridos, halogenetos, peróxidos e peroxiácidos; seus derivados halogenados, sulfonados, nitrados ou nitrosados 7,68 49,79
8441 Outras máquinas e aparelhos, para o trabalho da pasta de papel, do papel ou do cartão, incluídas as cortadeiras de todos os tipos 6,84 48,06
1505 Suarda e substâncias gordas dela derivadas, incluindo a lanolina 2,29 46,68
6815 Obras de pedra ou de outras matérias minerais (incluídas as fibras de carbono, as obras destas matérias ou de turfa), não especificadas nem compreendidas noutras posições 5,52 45,69
1108 Amidos e féculas; inulina 9,02 41,07
8503 Partes reconhecíveis como destinadas às máquinas das posições 8501 ou 8502 24,28 40,32
3816 Cimentos, argamassas, concretos e composições semelhantes, refratários 2,47 40,17
6909 Aparelhos e artefactos para usos químicos ou para outros usos técnicos, de cerâmica; alguidares, gamelas e outros recipientes semelhantes para usos rurais, de cerâmica; bilhas e outras vasilhas próprias para transporte ou embalagem, de cerâmica 1,18 35,4
2932 Compostos heterocíclicos exclusivamente de hetero-átomo(s) de oxigénio 5,24 35,24
Demais Produtos 427,97
Total 493,93

Fonte: Elaboração própria partir de dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) e Observatório de Complexidade Econômica (OCE).

Nota-se, por exemplo, que o aço inoxidável (7218) é o exemplo mais crítico, com 71,02% das exportações do grupo direcionadas ao mercado norte-americano. Situações semelhantes são observadas nos ácidos policarboxílicos, em máquinas e equipamentos para papel e cartão e em compostos heterocíclicos, todos com taxas de especialização superiores a 35%.

Conclusões

A análise demonstra que a maior parte das exportações da Região Metropolitana de Campinas para os Estados Unidos está amplamente exposta à tarifa de 50% imposta pelo governo americano. Do total de aproximadamente 837 milhões de dólares exportados, no período de 12 meses entre agosto de 2024 e julho de 2025, apenas 277,39 milhões de dólares, equivalentes a 33,13%, correspondem a grupos com isenções vinculadas exclusivamente ao setor aeronáutico, cujo alcance efetivo é restrito. Outros 85,83 milhões de dólares, ou 10,25% do total, referem-se a grupos com isenções parciais, sem exclusividade para aviação. Para estes dois casos, é possível que parcela relevante dos produtos ainda esteja sujeitos às tarifas. Por outro lado, 493,93 milhões de dólares, correspondentes a 59% das exportações regionais para os Estados Unidos, não possuem qualquer produto isento e encontram-se integralmente sujeitos à nova tarifa de 50%.

Existem setores da economia regional com exportações altamente especializadas nos mercados estado-unidenses. Dentre produtos com maior valor exportado, 81,87% das exportações de pneus recauchutados (NCM 4012) foram destinadas aos EUA. Para os motores e geradores elétricos (NCM 8501) o percentual foi de 24,48%. Dentre produtos de menor magnitude do valor exportado, porém de maior nível de especialização, destacam-se: partes de máquinas (NCM 8503) com 40,32%, amidos e féculas (NCM 1108) com 41,07%, ácidos policarboxílicos (NCM 2917) com 49,79% e, sobretudo, aço inoxidável (NCM 7218), em que 71,02% das exportações para os EUA.

Conclui-se, portanto, que embora a lista de exceções inclua setores relevantes, sua capacidade de mitigar os impactos é limitada e insuficiente diante da magnitude da exposição. A pauta exportadora da RMC revela forte exposição aos efeitos adversos das tarifas, tanto pela concentração de valor em produtos sujeitos integralmente à tarifa quanto pela existência de setores altamente especializados nos Estados Unidos, o que amplia os riscos de impactos importantes para setores específicos.

É importante considerar que, em alguns municípios da Região, pode haver impactos relevantes sobre o emprego e a arrecadação de impostos, especialmente nos de menor porte, cuja economia depende fortemente da atuação de poucas empresas voltadas ao mercado norte-americano. Santo Antônio de Posse, por exemplo, destinou 77,7% das suas exportações para os Estados Unidos em 2024. O município exporta quase que exclusivamente preparações de carne (NCM 1602), que representou 93,2% do total exportado em 2024. Isto evidencia o alto grau de especialização das empresas do município em mercados estado-unidenses, e a magnitude potencial do impacto do tarifaço para a atividade econômica do município.

Referências

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Secretaria de Comércio Exterior – SECEX. Sistema de Análise das Informações de Comércio Exterior (Comex Stat). Brasília: MDIC, 2025. Disponível em: https://comexstat.mdic.gov.br/. Acesso em: 19 ago. 2025.

INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (Ipea). Visão Geral da Conjuntura: Carta de Conjuntura n.º 67 – Nota de Conjuntura n.º 26 – 2.º trimestre de 2025. Brasília, 1 jul. 2025. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/cartadeconjuntura/wp-content/uploads/2025/07/250701_cc_67_nota_26_visao_geral.pdf. Acesso em: 18 ago. 2025.

Observatory of Economic Complexity (OEC)
OBSERVATORY OF ECONOMIC COMPLEXITY (OEC). The Observatory of Economic Complexity. Cambridge, MA: Datawheel LLC, 2025. Disponível em: https://oec.world/. Acesso em: 19 ago. 2025.

  1. A lista completa com as 73 posições com exceção tarifária para produtos destinados ao setor aeronáuticos está disponível sob demanda direcionada ao Observatório PUC-Campinas, pelo e-mail observatorio@puc-campinas.edu.br . Os requerentes devem se identificar e explicitar a finalidade da requisição.


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