Séries Especiais

Diálogos Temáticos: Comunidade – Volume 2 | N. 01

junho 2026
Vinícius Aurélio Gramostin de Moraes
Sueli Aparecida Baldini da Silva
Isabela Pereira Rocha
Camilla Marcondes Massaro

 


Nuvem de palavras – Vinícius Aurélio Gramostin de Moraes (à esquerda) e Sueli Aparecida Baldini da Silva (à direita). Elaboradas por Isabela Pereira Rocha a partir da gravação do diálogo.

 

Apresentação

A presente produção é fruto da parceria entre a Faculdade de Ciências Sociais e o Observatório PUC-Campinas no desenvolvimento das atividades de curricularização da extensão relativas ao primeiro semestre de 2026, vinculadas ao componente curricular “Projeto Integrador: patrimônios, territórios e diversidades sociais”, ofertado aos alunos do 7º período do curso de Bacharelado em Ciências Sociais. As atividades foram realizadas em parceria com o Centro Regional de Atenção aos Maus-Tratos na Infância (CRAMI), especificamente com mulheres participantes das três primeiras edições do Projeto Florescer.

A proposta teve como escopo central a valorização do saber construído por três mulheres participantes do projeto que se destacam como lideranças comunitárias em seus territórios, entendidos como patrimônio imaterial em articulação com a diversidade que atravessa a constituição da identidade dessas mulheres.

Ao longo do semestre, em conjunto com as participantes, os alunos construíram de forma colaborativa um percurso narrativo, costurando as articulações com a comunidade e o território nos quais elas se constituem como lideranças e valorizando os saberes produzidos por essas comunidades como patrimônio que desvela e materializa as diversidades sociais, a partir da palavra geradora que norteia o diálogo aqui apresentado.

A gravação do diálogo foi realizada por Vinícius Aurélio Gramostin de Moraes, 23 anos, estudante de Ciências Sociais, e por Sueli Aparecida Baldini da Silva, 66 anos, moradora do Parque Valença II, na cidade de Campinas, e participante do Projeto Florescer, tendo como motivação a palavra “Comunidade”, que deixa de ser apenas uma delimitação geográfica para assumir o papel de um espaço de acolhimento, escuta e transformação social.

O diálogo ocorreu em 29 de maio de 2026 e teve duração aproximada de 25 minutos. O roteiro foi elaborado por Vinícius Aurélio Gramostin de Moraes e Isabela Pereira Rocha, que também foi responsável pela transcrição, revisão e ajustes do material, sob orientação da professora Dra. Camilla Marcondes Massaro, pesquisadora do Observatório PUC-Campinas e responsável pelo componente curricular.

***

Vinícius: Dona Sueli, é um prazer conversar com a senhora de novo. Esse trabalho que a gente está fazendo, tem como principal objetivo nós aprendermos com a senhora sobre a maneira como a senhora se recoloca na sua vida, a partir das suas experiências como mulher, da sua vivência. É um diálogo nosso buscando valorizar os saberes produzidos pela senhora a partir das suas experiências e realidade, principalmente pensando na palavra que a gente conversou, que é comunidade. Podemos começar ouvindo o que que a senhora acha dessa palavra?

Sueli: Eu acho uma palavra muito boa, comunidade. Quando você falou para mim, eu fiquei pensando. Porque assim, para mim, uma comunidade é uma comunidade de pessoas.

Que junta as pessoas para falar sobre opinião, sobre a família mesmo. Como a gente tem que se entender uns com os outros. Também sobre racismo, sobre violência, violência contra crianças, contra a mulher também, que a mulher também sofre violência. E aí eu achei muito bom, porque além de eu participar de grupos aqui, eu participo do CRAS também, onde a gente conversa bastante, tem bastante diálogo. Então nesses espaços eu vejo que é uma comunidade que a gente tem. No postinho de saúde também, que eu faço artesanato lá. Juntamos as mulheres também lá para falar. Eu creio que é isso, uma comunidade, né? De participar das coisas para a gente entender melhor da vida, como a gente tem que agir.

Vinícius: A senhora falou para a gente que participa de algumas dessas comunidades, né? Quantas são mesmo?

Sueli: Eu participo da ONG, do CRAS Dandara, da assistência social e do postinho de saúde, e do Florescer, onde nos conhecemos.

E participar dessas comunidades têm me ajudado bastante. Porque eu era muito quieta, porque eu apanhava muito, né? Eu fui muito sofredora. E eu não… Sorria, e eu sempre fui de dar risada, mas eu tinha momentos em que eu ficava isolada, sabe? Não tinha com quem conversar, não tinha com quem falar. E ficava mais dentro de casa. Se eu saísse na rua, as pessoas falavam para mim que eu era estranha porque eu não conversava com ninguém. Agora eles me conhecem, agora sim eles veem que eu sou. Meus vizinhos são ótimos, todo mundo é ótimo.

Eu conheci essa primeira comunidade [da ONG na qual participa de atividades em grupo] um dia que eu estava chorando na rua e encontrei uma conhecida minha, que conheceu até o pai dos meus filhos, meu ex-marido, e ela me chamou, me deu um monte de broncas, né? E falou: “Vamos ali comigo, que você vai se divertir, vai conhecer as pessoas e você vai ter mais conhecimento.” Mesmo assim eu não fui. Eu fiquei com vergonha e eu ficava sem jeito também. Eu não era igual eu sou hoje. Aí foi quando as assistentes sociais dessa ONG vieram aqui. Elas vieram, viram a minha situação e me orientaram sobre como eu tinha que fazer. Acho que a minha conhecida falou para as profissionais da ONG. Foi aí que eu comecei a ter um relacionamento assim, de pensar, tipo, no que eu estava fazendo, entendeu?

Foi aí que eu comecei a frequentar os grupos. Aí depois os médicos daqui do postinho também me encaminharam para o psicólogo, passei no psicólogo e o meu médico falou que eu tinha que fazer alguma atividade, que eu tinha que sair de casa. Foi aí que eu comecei a fazer atividade nesses grupos: crochê, tricô, pintura em quadro, pintura em pano.

Vinícius: É interessante pensar que, como a comunidade é importante para a senhora, entender também que a entrada da senhora nessas comunidades foi a partir de uma pessoa do seu bairro, né?

É interessante porque com a comunidade é um conjunto de pessoas que têm interesses em comum, mas que também podem compartilhar um território em comum, né?

Me parece que o principal, quando a gente pensa na palavra comunidade, que ajudou a senhora, foi o diálogo com as pessoas, talvez em situações parecidas?

Sueli: Isso, o diálogo é muito bom, viu? O diálogo, as pessoas… as pessoas te orientam. Uma coisa que eu achei muito boa, sabe do que? Foi no projeto Florescer. Porque mesmo eu estando aqui na ONG, eu ainda era assim, com vergonha de falar de mim mesma, sabe? Eu não falava com ninguém. Aí foi quando o pessoal do Florescer veio aqui na ONG, e a assistente social pegou o nosso nome e fez um sorteio para ver quem ia poder participar do projeto. Aí eu fui sorteada! Nós éramos quase 10 pessoas, mas depois, ficamos só eu e uma outra menina daqui do bairro. Nós estamos até hoje, só nós duas.

Foi participando das reuniões semanais do Florescer, que eu comecei a ser incentivada a falar mais. Fiquei até tremendo no primeiro dia que falei. Porque eu não era assim de desabafar, sabe? Desabafar e falar o que eu passei. E eu não sei o que me deu coragem aquele dia, eu contei tudo. Aquilo parece que saiu de dentro de mim, sabe? Aí foi que eu comecei a falar, entendeu? No Florescer.

Vinícius: E as mulheres do Florescer são do mesmo bairro? Ou elas vêm de bairros diferentes também?

Sueli: Tem de vários bairros.

Vinícius: E a senhora fez novas amizades também, né?

Sueli: Ah, sim. Vinícius, ninguém aguenta comigo agora, viu? Para quem era quieta…  agora ninguém aguenta, nem meus filhos aguentam comigo, de tanto eu falar, já que eu não falava.

Vinícius: Ah, assim que é bom, Dona Sueli, porque aí você conversa bastante. Porque sabe como é, quando a gente fica com pouca coisa na cabeça, fica pensando em coisa ruim, né? A senhora sabe, eu também tenho um pouco disso.

Sueli: Pensa, pensa. Às vezes cresce cada coisa na minha cabeça. Na semana passada, a minha cabeça começou a doer. O médico já falou que eu não posso deixar a cabeça doer, né? Aí eu comecei a pensar, pensar, pensar apesar de me falarem que não é mais para pensar nas coisas que já passaram, né? Mesmo assim vem, porque eu apanhei muito do pai dos meus filhos, eu apanhei demais. Tanto que esse ouvido meu, o direito, eu não escuto direito por causa do soco que ele me deu. Aí o que acontece? Eu fiquei assim, doida da cabeça, até ontem eu estava com essa dor de cabeça. Aí o que eu fiz? Eu tive que sair para pagar uma conta, então eu já aproveitei, já fui lá no postinho de saúde que tem grupo de artesanato. Fui lá, comecei a conversar, aí nós ficamos conversando, brincando, até que agora a dor de cabeça passou, foi muito bom.

Vinícius: Que bom! Com certeza é muito interessante tudo isso, e eu imagino que as atividades que a senhora faz nesses lugares também ajudam, né? A senhora até falou da técnica do bordado lá, como é que é mesmo?

Sueli: O bordado Liso da Vovó, é da minha época. Porque eu lembro, quando eu fui criada, a gente não podia ficar perto dos adultos, né? Eu via de longe a minha avó, a mãe da minha mãe, costurar na máquina. Eu tinha 7 anos de idade. Aí eu ficava olhando, eu ficava interessada em ver como é que ela mexia naquelas máquinas antigas, né? E do lado morava a minha madrinha, e a minha madrinha fazia crochê no saquinho de leite. Sabe aquele saquinho de leite? Aí que eu aprendi a costurar e fazer o crochê. Depois, lá em Mairiporã, interior de São Paulo, onde eu tive meus filhos, lá não tem comunidade para aprender, nem nada. Mas aí eu ficava sozinha pegando pano, assim, para fazer crochê. Aí eu fui conhecer comunidade mesmo aqui em Campinas.

Sueli: Ajuda também, uma ajuda a outra. É muito bom isso! São muitas histórias que a gente vê, sabe? Quando eu penso assim, eu falo: “Meu Deus, tem vida pior do que a minha.”

Vinícius: E às vezes a pessoa tem mais de uma vulnerabilidade, né? Como assim, por exemplo, a senhora falou do racismo, assim… eu não sei como foi para a senhora, se a senhora sofreu com isso também, além da violência doméstica; se a senhora ou se outras pessoas que a senhora conhece, por ser uma mulher negra, têm mais dificuldade, enfim… as pessoas falam disso nesses grupos também?

Sueli: Falam, sobre algumas palavras, ensinam para a gente como a gente tem que agir, falar… tem algumas palavras que a gente não pode falar, entendeu? Tem que ter, assim, uma união, uma com a outra, como se fosse uma família. Assim que eu estou aprendendo.

Vinícius: Que bom, que legal. É muito bom saber como é justamente por essas relações pessoais, que vocês vão se apoiando e indicando os grupos, né?

Sueli: Isso. Tem mulheres que até choram por causa do sofrimento. Nossa, a gente se sente acolhida, sabe? Pelas professoras falando com a gente; se for em particular, já chamam na sala, falam separado, sabe? Mas é muito bom!

Vinícius: Nossa, Sueli, estou achando a conversa fantástica, aprendendo muito com a senhora, não só conhecendo sua história de vida e as dificuldades que enfrentou, mas acho que uma das coisas que mais aprendi com a senhora é que para a gente às vezes superar ou às vezes até esquecer o passado, a gente tem que focar no presente.

Sueli: Tem, tem que olhar para a frente, tem que, primeiramente, colocar Deus na frente, e seguir a vida. Porque eu já tive colegas minhas que, de tanto sofrer com o marido, de violência, acabaram morrendo. E aí eu falei: “Eu não quero acabar com a minha vida assim, não.” Eu falei: “Se eu vou, é para a frente.”

Vinícius: E ir para a frente assim com as pessoas, né?

Sueli: Isso. Amizade, tem que ter amizade, conhecimento, sabe? Saber falar, conversar com as pessoas. É muito bom! Nossa, eu estou amando, viu? Sim, porque quando a gente fica só com esse sofrimento dentro de nós, a gente não vê que tem outras pessoas sofrendo também, né?

Vinícius: E formas de superar, né?

Dona Sueli: É verdade que tem! Eu conheço algumas, até as oriento para o Florescer, sabe? Eu falo, mas a pessoa parece que tem medo de falar, sabe? Tem medo de ir atrás para poder se proteger. É complicado, viu?

Vinícius: Sim, sim. Bom, que bom que tem esses projetos, para ajudar não só a senhora, como outras pessoas também, né? E imagino que a senhora, que já está acostumada a ir nesses projetos, está sendo referência para as outras mulheres também, né?

Sueli: Sim, sim, tem algumas coisas que quando eles vão falar alguma coisa assim, eles falam do meu exemplo, né? De como é que eu saí, como é que eu sou agora.

Vinícius: E o que a senhora está achando de toda essa experiência?

Sueli: Amei, estou amando. Cada coisa que eu aprendo cada dia, estou amando cada vez mais. Porque eu estou, apesar de ser velha, né? Estou aprendendo mais.

Eu só me arrependo de não ter conhecido antes os direitos da mulher, para saber como é que eu tinha que agir, sabe? Eu acho que se eu fosse mais vivida igual agora, acho que o meu sonho seria estudar e fazer faculdade. Mas eu não tive isso e agora, também não vou atrás, estou sossegada.

Nos grupos tem aula de violão, aula de canto, ginástica, artesanato, culinária. Já fiz até corte e costura. Já fiz tudo isso. Também faço crochê, faço fuxico. Sabe o que é fuxico? Fuxico é de pano, bolinha de pano. Então eu faço crochê, faço fuxico, faço tricô, faço pintura de pano de prato.

Nos grupos, se chegar alguma mulher chorando, deprimida, a gente dá um conselho. Nós oferecemos tudo o que elas precisarem para ficar; se quiserem beber um café, alguma coisa de comer.

Vinícius: Muito bom ver tudo isso que a senhora está vivendo e que a senhora continue assim, sendo feliz, que é o mais importante, né?

Sueli: É importante mesmo, viu? A gente tem que olhar para a frente. Pena que não são todas as mulheres que podem olhar para fazer igual a gente faz, né? Porque a gente vê cada história… eu mesma vejo cada história quando eu chego aqui na minha casa, eu falo com meus filhos e falo assim: “Gente, eu nunca vi… é pior do que a minha.” Aí fica mais difícil, entendeu? A gente estuda, para entender como é que vai falar e orientar a pessoa. Assim que eu faço.

Vinícius: Muito bom! Muito obrigado por esse tempo, Dona Sueli, deu para a gente conversar bastante, falar bastante sobre a palavra comunidade, né? Acho que ela resume bem, né? Tudo isso que a senhora está vivendo hoje em dia.

Sueli: Eu gostei, porque eu fiquei pensando, assim, nessa palavra comunidade. Eu falei: “Jesus, o que é a comunidade?” Aí eu perguntei para o meu filho: “O que significa a palavra comunidade?” Ele falou: “Mãe, comunidade é aonde a senhora vai, onde a senhora vive, as pessoas.” Aí quando ele foi falando assim, eu falei: “Ah, já sei o que eu vou falar.”

Vinícius: Que bom. Que bom, eu acho que é uma palavra muito boa, e para a gente pensar e refletir.

Sueli: Eu espero que sirva para alguma coisa para vocês.

Vinícius: Com certeza, serviu demais!

Vinícius: Muito obrigado pelo tempo.

Sueli: Obrigada a vocês também. Só que eu te aviso, em vez de eu ensinar vocês, vocês estão me ensinando!

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