Séries Especiais

Diálogos Temáticos: Língua – Volume 2 | N.02

junho 2026
Naê Della’ Parma Prieto Salatim
Viviane Corrêa de Oliveira Valentim
Wilian Duarte Salles
Alice Holanda do Nascimento
Camilla Marcondes Massaro

Nuvem de palavras – Naê Della’ Parma Prieto Salatim (à esquerda) e Viviane Corrêa de Oliveira Valentim (à direita). Elaboradas por Alice Holanda do Nascimento a partir da gravação do diálogo.

Apresentação

 A presente produção é fruto da parceria entre a Faculdade de Ciências Sociais e o Observatório PUC-Campinas no desenvolvimento das atividades de curricularização da extensão relativas ao primeiro semestre de 2026, vinculadas ao componente curricular “Projeto Integrador: patrimônios, territórios e diversidades sociais”, ofertado aos alunos do 7º período do curso de Bacharelado em Ciências Sociais. As atividades foram realizadas em parceria com o Centro Regional de Atenção aos Maus-Tratos na Infância (CRAMI), especificamente com mulheres participantes das três primeiras edições do Projeto Florescer.

A proposta teve como escopo central a valorização do saber construído por três mulheres participantes do projeto que se destacam como lideranças comunitárias em seus territórios, entendidos como patrimônio imaterial em articulação com a diversidade que atravessa a constituição da identidade dessas mulheres.

Ao longo do semestre, em conjunto com as participantes, os alunos construíram de forma colaborativa um percurso narrativo, costurando as articulações com a comunidade e o território nos quais elas se constituem como lideranças e valorizando os saberes produzidos por essas comunidades como patrimônio que desvela e materializa as diversidades sociais, a partir da palavra geradora que norteia o diálogo aqui apresentado.

O roteiro e a gravação do diálogo foram realizados por Naê Della’ Parma Salatim, 30 anos, estudante de Ciências Sociais, e por Viviane Corrêa de Oliveira Valentim, 42 anos, participante do Projeto Florescer, avó de três netos e mãe de três filhos, tendo como motivação a palavra “Língua”, entendida não apenas como um simples instrumento de comunicação, mas também como expressão de identidade, cultura e pertencimento social.

A conversa foi desenvolvida com o objetivo de promover uma troca de saberes entre as participantes, valorizando suas diferentes experiências de vida e perspectivas sobre o que é essa “Língua” que utilizamos, bem como seus diversos contextos e usos. O diálogo ocorreu em 28 de maio de 2026 e teve duração aproximada de 30 minutos. A transcrição foi realizada por Wilian Duarte Salles, enquanto a revisão e os ajustes ficaram a cargo de Alice Holanda do Nascimento, sob orientação da professora Dra. Camilla Marcondes Massaro, pesquisadora do Observatório PUC-Campinas e responsável pelo componente curricular.

***

 Naê: Vou começar lendo um trechinho que escolhi da Lélia Gonzalez. Você me falou que gosta da Lélia, e tem um texto dela em que ela fala exatamente sobre a língua. É muito interessante ler os textos da Lélia porque ela escreve do mesmo jeito que fala. Então, quando a gente lê, estranha um pouco, porque ela modifica algumas palavras para a forma como realmente falamos. E isso é muito interessante, não é? Porque ela é uma intelectual, extremamente inteligente, com obras maravilhosas dentro das Ciências Sociais. E, ainda assim, reforça a importância da língua como um espaço de expressão e identidade. O trecho dela diz o seguinte:

“É engraçado como eles gozam a gente quando a gente diz que é framengo. Chamam a gente de ignorante, dizendo que a gente fala errado. E, de repente, ignoram que a presença desse R no lugar do L nada mais é do que uma marca linguística de um idioma africano, no qual o L é inexistente. Afinal, quem é mais ignorante? Ao mesmo tempo, acham o maior barato a fala dita brasileira, que corta os R’s dos infinitivos verbais, que condensa o ‘você’ em ‘‘, o ‘está’ em ‘tá’ e por aí afora. Não sacam que estão falando pretoguês.”

Viviane: Pretoguês. Eu estava olhando esse trecho e achei muito interessante. “Pretoguês”. Eu pensei: “Meu Deus do céu, realmente essa é a nossa língua”.

Naê: Pois é. Uma língua que está profundamente marcada por diversas questões culturais e por uma ancestralidade muito forte. Mas, antes de falarmos sobre isso, eu gostaria de ouvir você. Quero saber o que você pensa sobre a língua. O que é língua para você?

 Viviane: Quando falam sobre língua, eu penso da seguinte maneira: sei que não falo o português considerado correto. Acredito que a maioria das pessoas também não fala. Além disso, o português veio de Portugal e, se formos comparar, a forma como eles falam é bem diferente da nossa. Então muitas vezes tenho receio de falar em público, principalmente diante de pessoas que estudaram mais, mesmo sabendo que elas também falam de maneiras diferentes, porque nem todos falam esse português formal. Afinal, cada região tem seu sotaque e seu jeito de falar. Eu considero a língua portuguesa muito difícil de falar corretamente. Se eu ficar uma semana em Minas Gerais, por exemplo, já começo a falar como os mineiros. Eu fui casada com um mineiro durante sete anos e ele usava palavras que eu considerava erradas. Da mesma forma, eu falava palavras que ele achava erradas. Lembro que ele dizia “fizo isso” em vez de “eu fiz isso”. Eu dizia que ele estava falando errado, e ele respondia que não. Então, havia muitas diferenças entre nós. O meu medo de falar em público vem justamente disso: do olhar de julgamento e, às vezes, de deboche, isso acontece muito. As pessoas riem quando percebem que você fala de uma maneira diferente. Por isso, naquele dia, na roda de conversa do Florescer, eu falei sobre essa insegurança. Quando fiquei sabendo que iríamos nos apresentar na OAB, pensei: “Lá só tem advogados, pessoas muito estudadas. O português deles deve ser muito fluente”. E nós chegaríamos lá falando o nosso “caipira” ou, como costumo brincar, o nosso “crioulo campineiro”. Sempre digo isso: falo um “crioulo campineiro”. Quando voltei a estudar, aos 27 anos, percebi o quanto a falta de escolaridade dificultava minha vida. Eu havia decidido ser mãe solo, precisava trabalhar e lidar com muitas pessoas.

Então compreendi que precisava retornar à escola. Na época, um supervisor chegou a me dizer “Viviane, com a escolaridade que você tem, normalmente não contratamos. Exigimos pelo menos a quinta série.” Então eu deixei claro que eu já estava matriculada e determinada a continuar estudando. Trabalhei, estudei e consegui avançar.

Mesmo assim, eu percebia que muitas pessoas não entendiam o que eu dizia. Na verdade, eu falava de um jeito que apenas minha mãe, meus filhos e eu entendíamos completamente. Minha mãe era analfabeta e faleceu sem aprender a ler e escrever. Na família dela, acreditava-se que as mulheres não precisavam estudar, apenas os homens. Elas deveriam cuidar da casa, casar e ter filhos. Cresci vendo minha mãe trabalhar muito, lavando, passando roupa, cozinhando e fazendo faxinas. Durante muito tempo, achei que minha vida também seria assim, mas isso acabou me prejudicando, porque muitas pessoas riam de mim e da maneira como eu falava.

 Naê: Nossa, eu achei muito legal o que você comentou sobre o “crioulo campineiro”. Achei isso ótimo, porque eu entendo a língua como aquilo que utilizamos para que outra pessoa entenda o que estamos falando. Mas esse compreender é muito subjetivo, não é? Porque essa nossa língua está carregada de modos de falar, de gírias, de regionalidades e de marcas culturais. A partir disso, começamos a fazer uma distinção entre aquilo que chamamos de língua e aquilo que chamamos de linguagem. São coisas diferentes. Nós falamos a língua portuguesa, mas a nossa linguagem é outra coisa. A linguagem envolve as gírias, os gestos e as relações que construímos para conseguir nos comunicar, ela envolve o território, a terra em que estamos presentes e as experiências que compartilhamos.

Eu sempre comento que só percebo o quanto puxo o “R” quando estou fora daqui, quando saio do interior. Quando vou para a capital de São Paulo ou para o Rio de Janeiro, percebo que meu sotaque é bastante caipira, porque as pessoas me dizem isso. Elas falam: “seu ‘R’ é bem puxado”.

Então, é curioso você comentar isso, dizer que, quando esteve em outros ambientes, sentiu que a sua forma de falar era diferente. Mas eu acho que esse estranhamento também é muito saudável em diversos aspectos, porque estamos criando novas relações e novas percepções sobre a língua. Percebemos que ela é muito mais ampla do que parece.

Não existe apenas esse chamado “português correto”. Afinal, o que é esse português correto? O que é essa forma de falar que acreditamos que devemos utilizar, quando, na realidade, muitas vezes estamos negando uma parte de nós mesmos?

Quando tentamos esconder nossas gírias, nossos dialetos locais e nossas formas de expressão, acabamos deixando de reconhecer aspectos importantes da nossa identidade. Se pensarmos no Brasil, por exemplo, embora a língua oficial seja o português, existem mais de trezentas línguas indígenas faladas no país. Há muitas outras línguas dentro deste país.

Viviane: Exatamente. Em cada lugar para onde nós vamos, encontramos uma forma diferente de falar. Em São Paulo é de um jeito; no Rio de Janeiro, por exemplo, eles usam muito o som do “ti”. Muitas palavras terminam com esse som. Então eu penso: “Nossa, isso é muito interessante”. Por isso, eu sempre reflito sobre como é conversar com pessoas fora do meu ambiente. Porque, dentro de casa, no meu lar, eu falava de uma determinada maneira e isso nunca parecia ser um problema. Quando eu chegava ao trabalho, alguns colegas davam risada do meu jeito de falar. Comentavam coisas como: “olha o jeito que ela fala, que engraçadinha”. Às vezes, me tratavam como se eu fosse inocente ou alguém que não conhecesse o mundo. Pelo menos era essa a impressão que eu tinha. Então eu começava a pensar comigo mesma: “nossa, será que estou falando tão errado assim?”. Porque, quando a pessoa demonstra que não compreende o que você está dizendo, ou quando ri da sua forma de falar, você acaba ficando nervosa. E isso gera irritação também, porque, no fundo, é como se ela estivesse dizendo que você é menos inteligente.

Uma vez, uma colega se ofereceu para me ensinar matemática. Eu tinha muita dificuldade, principalmente para lidar com dinheiro. Não conseguia nem sacar dinheiro no banco. Ela começou a me explicar algumas contas simples e, quando eu finalmente consegui resolver uma delas, ela disse: “Nossa, você é muito burra!” Naquele momento, eu parei e percebi que aquilo não era ajuda, que ela estava me agredindo com palavras.

Então respondi: “Você disse que iria me ajudar, não me ofender. Se eu não sei, é justamente por isso que estou aprendendo. Não é porque você explicou uma vez que eu vou entender imediatamente”. Depois disso, nunca mais pedi ajuda para ela. Ela tentou se desculpar, dizendo que era brincadeira, mas eu respondi que não aceitava esse tipo de brincadeira.

Outra palavra pela qual ela costumava me corrigir era “truce”. Eu falava assim porque era comum no ambiente em que vivi, especialmente pela convivência com meu ex-marido mineiro. Ela dizia que a forma correta era “trouxe” e criticava constantemente meu jeito de falar. Isso acabou me marcando muito.

Naê: No final das contas, a linguagem serve para que possamos nos comunicar. Se a pessoa entende o que você está querendo dizer, mesmo que você pronuncie uma palavra considerada “errada”, a comunicação aconteceu, porque a pessoa compreendeu a mensagem. O problema é quando a língua passa a ser usada como instrumento de poder, para diminuir o outro, fazer com que ele se sinta inferior ou menos inteligente. Porque tem pessoas que pelo fato de falarem essa língua mais formal, não vou nem falar de língua correta, vou chamar de língua formal, essa língua formal mesmo, essa língua que a gente vê nos textos acadêmicos, nas empresas e em outros espaços, acreditam que são superiores àquelas que falam com mais gírias ou que trazem para a fala os seus dialetos. Mas isso ignora o fato de que as nossas línguas carregam os nossos territórios.

Eu ainda achei fantástico você ter usado a expressão “crioulo campineiro”, porque isso marca que essa é uma língua atravessada pelo seu lugar de origem, pelas suas raízes, sua negritude, pela sua trajetória e pelos lugares que ajudaram a formar quem você é.

Da mesma forma, eu tenho um sotaque caipira muito forte. Nunca me esqueço de uma situação que vivi quando fui fazer um teste para integrar o elenco de uma peça de teatro aqui em Campinas. Eu não fui selecionado porque disseram que o meu “R” era muito puxado, muito caipira.

Quando me falaram isso, eu tive um estalo. Pensei: “Mas eu estou em Campinas. Estou na mesma cidade em que tantas pessoas falam com esse mesmo ‘R’ puxado. Então, qual é a diferença? O que está acontecendo aqui?”.

Por isso, acho interessante refletirmos sobre como a língua pode abrir essas oportunidades de dialeto com outras. Ao mesmo tempo em que algumas pessoas menosprezam a nossa forma de falar, também é por meio dela que nos conectamos com outras pessoas.

Eu acredito que empresários ou outros públicos possam estranhar à sua maneira de falar quando você realizar palestras ou participar de determinados espaços. No entanto, as pessoas com quem você trabalha diretamente — aquelas do seu território, da sua comunidade, que precisam da sua ajuda e que compartilham experiências semelhantes às suas — compreendem perfeitamente o que você diz.

E eu queria te perguntar justamente isso: como você percebe essa questão? Você sente que, para conversar com as pessoas da sua comunidade, essa é uma língua que funciona? É uma língua que consegue dar conta das relações, das necessidades e da comunicação entre vocês?

Viviane: Sim, por exemplo, se eu vou conversar com alguém aqui no meu bairro, todos me entendem. Nunca ouvi ninguém dizer que não compreendeu o que eu falei. Pelo contrário. As pessoas dizem: “nossa, eu entendi perfeitamente”. Muitas vezes, elas até passam a utilizar as mesmas expressões. Mas aí eu fico imaginando situações que podem acontecer quando precisamos falar para outros públicos. Nessas horas, dá um certo bloqueio, porque dentro do meu território eu consigo conversar naturalmente, “desenrolar” com eles na gíria. Mas, diante de advogados, empresários, políticos ou pessoas consideradas mais instruídas, surge a insegurança. Ao mesmo tempo, percebi uma coisa interessante: sem os roteiros e discursos preparados, essas pessoas também não falam da mesma maneira que falam em eventos formais.

Foi algo que coloquei na minha cabeça. Pensei: se eles podem utilizar um roteiro, por que eu não posso? Se necessário, também posso levar minhas anotações, escritas do meu jeito, na minha linguagem, para me ajudar durante a apresentação.

Naê: Perfeito. E esse roteiro estaria escrito na sua linguagem, porque ele faz parte do seu mundo, não do mundo deles. Eles é que precisam fazer o exercício de compreender aquilo que você está dizendo.

Na Antropologia, por exemplo, estudamos recentemente que, historicamente, quem chegava a um território era quem precisava aprender a língua local. Hoje parece que acontece o contrário: acreditamos que devemos aprender outras línguas para receber quem vem de fora, mas não. Quem chega também precisa se esforçar para compreender o contexto e a linguagem do lugar.

É a mesma coisa com você. Você está indo falar sobre o seu território, sobre a sua comunidade e sobre aquilo que realiza no seu bairro. Portanto, são eles que precisam compreender o que você está dizendo. São eles que precisam traduzir isso para a realidade deles. Por isso, achei fantástico você perceber que eles também possuem uma linguagem que não é, necessariamente, a mesma que utilizam no cotidiano. Fora desses espaços formais, eles não falam dessa maneira. Em casa, por exemplo, provavelmente não se comunicam assim com suas famílias. Essa formalidade não está presente o tempo todo. Ela aparece em espaços específicos e está muito relacionada à questão do poder que comentávamos anteriormente. Existe uma expectativa de que, nesses ambientes, as pessoas falem e se comportem de determinada forma. É como se houvesse algo que as levasse a se comunicar de maneira diferente daquela que utilizam em seu cotidiano.

Isso acontece em todos os espaços. Da mesma forma que eu não posso utilizar o meu “caipirês” em determinados contextos acadêmicos, também não posso escrever meus trabalhos exatamente da maneira como falo. A língua vai se ajustando aos diferentes mundos dos quais participamos e às diferentes situações em que nos encontramos. E, ao mesmo tempo, carregamos os nossos territórios conosco. Talvez esse seja um dos pontos centrais da nossa conversa: compreender que essa língua, tão marcada pelo que você chamou de “crioulo campineiro”, está profundamente ligada ao território em que você vive. Ela é atravessada por esse território, permeada por ele e construída a partir das experiências que você teve nesse lugar. Por isso, ela é funcional. E, mais do que isso, ela é a língua adequada para o mundo em que você vive e para as relações que constrói nele.

Viviane: É verdade. Eu sempre digo isso para minha filha. Tudo o que aprendi ao longo desses anos como mãe solo e trabalhadora, eu procuro transmitir para meus filhos. Às vezes, ela fala algumas palavras da mesma forma que eu aprendi em casa. E eu procuro orientá-la. Ela responde: “ai, mãe, não me corrija, você me entendeu”. Então eu explico: “Eu estou corrigindo porque prefiro que você aprenda aqui comigo do que sofra com críticas ou que outras pessoas zombem de você”.

Também faço isso com o meu filho. Como ele conviveu bastante tempo com o pai dele, que é mineiro, acabou incorporando muitas expressões típicas de Minas Gerais. Até hoje ele fala algumas palavras daquele jeito. E eu digo: “filho, aqui as pessoas podem estranhar a forma como você fala”. Mas, ao mesmo tempo, eu sei que não está errado. É apenas uma forma diferente de falar.

Naê: E se formos pensar, quantas línguas existem dentro do Brasil. Mesmo no interior de São Paulo, os sotaques mudam muito de uma cidade para outra. Se formos para o sertão nordestino, encontraremos outras formas de expressão. No Norte, a mesma coisa. E tudo isso continua sendo português.

Viviane: E a gente fica encantado com cada jeito de falar, e tudo isso é português. Quando me casei com o mineiro que falei, eu adorava a maneira como ele falava. Achei bonito e acabei incorporando várias expressões mineiras. Muitas pessoas perguntavam: “você é mineira?” E eu respondia: “não, sou campineira”. E elas insistiam: “não parece, você fala igual aos mineiros”. Também já fui casada com um baiano e acabei aprendendo várias expressões da Bahia. A gente vai absorvendo essas formas de falar ao longo da vida.

Naê: Talvez o nosso português nem precisasse mais ser chamado apenas de português. Ele já é uma língua profundamente brasileira, o “Brasilerês” marcada por influências indígenas, africanas e pelas diferentes culturas que formam o país. Os nomes de muitos animais, plantas, lugares e até partes do corpo vêm dessas influências.

Viviane: Até hoje eu digo: “Minhas cadeiras estão doendo”. E você entende perfeitamente o que isso significa. Mas talvez alguém de outro lugar não compreenda imediatamente. Quando vou ao médico e digo que “minhas cadeiras estão doendo”, eles não me corrigem, entendem que estou falando da região do quadril ou da lombar. Mas essa expressão sempre existiu na minha casa. Minha mãe dizia: “minhas cadeiras estão doendo”. E eu cresci ouvindo isso. Por isso, para mim, essa expressão continua fazendo sentido até hoje.

Naê: E, para irmos nos encaminhando para o final desta conversa, eu gostaria de propor uma reflexão. É uma pergunta que também faço para mim neste momento: que língua é essa que nós falamos? Do que ela está carregada? O que carregamos por meio dela? Quem são as pessoas e os territórios que carregamos quando falamos essa língua? Eu não tenho uma resposta certa para isso. A ideia é apenas amarrarmos esse final de conversa e pensarmos juntos sobre essas questões.

Viviane: Então, eu vou continuar com o meu “crioulo campineiro”. E penso que cada pessoa fala na sua própria língua. Eu falo na minha própria língua, você fala na sua própria língua. Sabemos que existem lugares em que não podemos utilizar a nossa linguagem da mesma forma, porque, infelizmente, muitas vezes as pessoas até entendem o que estamos dizendo, mas acabam nos julgando. Vão dizer que aquela pessoa é muito humilde, por exemplo, para não utilizarem outras palavras mais ofensivas. Mas nós sabemos que não somos menos capazes por causa disso. Essa é uma linguagem que veio dos nossos antepassados e foi transmitida para nós. Foi a linguagem com a qual eu cresci, ela fez parte da minha trajetória como criança, adolescente, mulher, mãe, avó e tia. Por isso, ela faz parte da minha vida, eu não quero abrir mão dela.

Como eu te disse anteriormente, vou levar meu roteiro comigo e eles que procurem compreender o que estou dizendo. Eu falo na minha língua, e eles que traduzam para a realidade deles aquilo que considerarem necessário. Se acharem que alguma coisa está errada, essa será uma interpretação deles. Para mim, essa é a minha forma de falar e de existir no mundo. E é isso, não existe uma resposta certa para essa pergunta.

Naê: Eu também me identifico muito com essa língua caipira, que carrego com orgulho, justamente por ser a língua dos meus ancestrais e da minha terra. Mas eu também carrego muitas outras. Carrego muito o Pajubá, por exemplo, que é uma linguagem muito presente na comunidade LGBT+, é uma forma de comunicação que reúne palavras, expressões e códigos que muitas vezes só quem faz parte desse universo compreende. Historicamente, ela também serviu como forma de proteção, de reconhecimento e de resistência.

Viviane: É como um código, não é?

Naê: Exatamente. Um código que utilizamos para nos comunicar e, em muitos momentos, para nos proteger. Por isso, penso que a minha língua talvez seja uma mistura entre o caipira e o Pajubá, uma combinação de diferentes experiências, territórios e histórias. Mas é isso, então, Vivi. Muito obrigado pela sua participação. Você gostaria de dizer mais alguma coisa?

Viviane: Está tudo perfeito, foi tudo ótimo. Conversando assim, nem parece um bicho de sete cabeças. Você me entendeu na minha própria língua, e eu entendi muito bem você na sua própria língua. Então, acredito que nós vamos conseguir “tirar de letra” falando atrás de qualquer tribuna!

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