Séries Especiais
Diálogos Temáticos: Território – Volume 2 | N.03


Nuvem de palavras – Maria Clara Couto e Maria Figueiredo Rodrigues (à esquerda) e Elisangela de Cassia Brasiliano da Costa (à direita). Elaboradas por Maria Clara Couto a partir da gravação do diálogo.
Apresentação
A presente produção é fruto da parceria entre a Faculdade de Ciências Sociais e o Observatório PUC-Campinas no desenvolvimento das atividades de curricularização da extensão relativas ao primeiro semestre de 2026, vinculadas ao componente curricular “Projeto Integrador: patrimônios, territórios e diversidades sociais”, ofertado aos alunos do 7º período do curso de Bacharelado em Ciências Sociais. As atividades foram realizadas em parceria com o Centro Regional de Atenção aos Maus-Tratos na Infância (CRAMI), especificamente com mulheres participantes das três primeiras edições do Projeto Florescer.
A proposta teve como escopo central a valorização do saber construído por três mulheres participantes do projeto que se destacam como lideranças comunitárias em seus territórios, entendidos como patrimônio imaterial em articulação com a diversidade que atravessa a constituição da identidade dessas mulheres.
Ao longo do semestre, em conjunto com as participantes, os alunos construíram de forma colaborativa um percurso narrativo, costurando as articulações com a comunidade e o território nos quais elas se constituem como lideranças e valorizando os saberes produzidos por essas comunidades como patrimônio que desvela e materializa as diversidades sociais, a partir da palavra geradora que norteia o diálogo aqui apresentado.
O roteiro do diálogo foi construído de forma conjunta por Maria Rodrigues, Maria Clara Couto e André Lorenzino, e a gravação foi realizada por Maria Rodrigues, Maria Clara Couto e pela líder comunitária do Jardim Bassoli, Elisangela de Cassia Brasiliano da Costa, também participante do Projeto Florescer, tendo como motivação o termo “Território”, entendido como elemento fundamental para a formação das dinâmicas sociais.
Ao longo da conversa, foi possível adentrar a noção de construção territorial enquanto processo social e compreender os elementos que diferenciam os territórios. O Jardim Bassoli, localizado na região do Campo Grande, em Campinas, constitui um caso particular por ter sido formado a partir da chegada simultânea de famílias oriundas de diferentes localidades, reunidas em um conjunto habitacional, o que produziu desafios específicos relacionados à convivência, ao pertencimento e à construção de vínculos comunitários.
Compreendendo que o território vai muito além do espaço físico, a conversa permitiu refletir sobre seus atravessamentos na construção de uma identidade atrelada ao lugar, tanto em sua dimensão pessoal quanto comunitária, evidenciando esse processo como essencial para a articulação entre os próprios moradores. Além disso, o cuidado, enquanto prática que viabiliza a vida dentro e fora do território, foi discutido como elemento estruturante, inclusive em sua dimensão comunitária, destacando-se o papel das lideranças, sobretudo femininas, nesse trabalho.
Na ausência do Estado, os moradores precisam atuar como agentes de transformação do próprio território, construindo soluções locais e articulando-se entre si, inclusive de forma interterritorial, em uma rede mútua de apoio voltada à reivindicação de direitos. Elisangela é protagonista desse processo, atuando como moradora e líder comunitária do bairro desde sua inauguração, o que lhe confere conhecimento prático sobre as discussões e os temas abordados neste diálogo.
O diálogo ocorreu em 2 de junho de 2026 e teve duração aproximada de 60 minutos. A transcrição foi realizada por André Lorenzino, enquanto a revisão e os ajustes ficaram a cargo de Maria Figueiredo Rodrigues, sob orientação da professora Dra. Camilla Marcondes Massaro, pesquisadora do Observatório PUC-Campinas e responsável pelo componente curricular.
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Maria Clara: Onde eu moro, no Morro Doce em São Paulo, que é uma periferia que está muito afastada da cidade e que tem muito mato, parece bastante aqui o Bassoli, se você olhar para o fundo, tem bastante mato, tem vaca andando, tem galinha. Se a gente pensar também que a maioria das periferias, as pessoas que moram, vem de migração do Nordeste também, então é uma cultura que é trazida.
Elisangela: É a mesma coisa aqui. As pessoas trazem as culturas, mas há muitas controvérsias, coisas erradas. Podia deixar as coisas ruins e trazer as boas da favela. Mas não é assim.
É gostoso viver numa comunidade? É e ao mesmo tempo não é. Eu, quando vou em certas reuniões, eu vou num monte de lugar, eu vou e falam assim; “ah, o pessoal do Bassoli vive em situação de vulnerabilidade”. Dá vontade de levantar e falar, é mentira. É mentira porque o povo está em situação de vulnerabilidade porque ele quer. A maioria aqui tem mais de três filhos e poucos que são iguais a mim, tem um filho, a maioria tem três, quatro, tem família, tem sete filhos.
Se pegar o bolsa família de todo mundo. Dá para você se manter? Dá. Você não paga aluguel, você não paga condomínio, você não paga água, você não paga luz. Porque eu acho feio você ir num lugar e falar, que onde você mora é em situação de vulnerabilidade. Se a pessoa tiver capacidade de levantar cedo e trabalhar, ela trabalha. Ela vai ganhar o dinheiro dela não vai viver em situação de vulnerabilidade.
Maria Figueiredo: Mas precisamos pensar também que não é só uma questão de querer ou não. Tem mulher que tem vários filhos, ganha o Bolsa Família, mas é só ela também. Então, não tem como falar que não pode trabalhar e viver só do Bolsa.
Elisangela: É para isso que tem os centros de convivência que ficam com a criança no contraturno escolar. Realmente, tem mulher que está sozinha, mas se ela não usar os recursos ela não trabalha.
Maria Figueiredo: Mas o que você acha que ajudaria? Para a gente ir voltando, para a temática do território. Por exemplo, você ser chamada de vó pela menina que encontramos mais cedo, pois ela não tem mais mãe, mas, de repente, ela tem uma tia ou uma pessoa que era amiga da mãe, que é vizinho. Uma referência como você. Pois muitas vezes, as pessoas têm uma falta de uma referência no território sobre o caminho a seguir.
Maria Clara: Isso tem tudo a ver com território, ter alguém de referência como você é muito importante para dar uma atenção, dar uma dica, ajudar a proteger as crianças do território.
Aproveitando aqui a deixa: tem um pensador que se chama Milton Santos. Ele fala que o território é resultado das relações sociais. Como você enxerga esses agentes de transformação dentro do território, no Bassoli, por exemplo, onde você é uma agente de transformação?
Como é que a população aqui se articula para trazer uma transformação para o bairro, desde coisas grandes, como arrumar uma caixa d’água, até transformação como uma atitude de proteção ao adolescente, criar a rede de mulheres. Essas relações sociais, elas constroem um modelo social muito bonito. É nisso que o território vai se construir, nessas relações sociais.
Elisangela: Eu acho muito importante o que você está falando na questão de como pode ser feito isso. A gente tinha que ter uma outra metodologia para conseguir evoluir nesse sentido de conseguir mais pessoas. Eu sou uma só. Conheço bastante gente, bem articulada, converso com todo mundo.
Se eu vir que está errado, eu chamo a atenção mesmo. Se a mãe não gostou, ela pode me perguntar para mim, depois eu falo por que eu chamei a atenção. Não corro de ninguém, não tenho problema com ninguém. Assim como você falou a questão da caixa d’água. Eu como síndica do condomínio, organizei uma reunião para levantar o dinheiro do conserto da caixa d’água. Vai ser feito um rateio entre os 180 moradores. Tem morador que topou, tem morador que não topou. Por quê? Porque ele acha que ele não usa a caixa d’água, mas quando fecha a caixa d’água e fica sem água, todo mundo fica sem água.
Essa fala da gente poder ajudar as pessoas é sempre válida. Porque tudo que você sabe, passar para outras pessoas se torna diferente. E às vezes você aconselha uma pessoa, ela pega o conselho, ela guarda. A maioria, na hora fala que não quer que eu faça nada, mas na hora que chega em casa… E se eu fizer assim, pode ser que dê certo. Às vezes a pessoa está numa situação de apanhar em casa do marido. Você não vai chegar lá e falar para ela: “larga do seu marido”, sendo que na maioria das vezes ela está em situação de dependência econômica. Ela pode parar de apanhar dele. Tem lugares que a gente vai conhecendo, como o Florescer, que podem ajudar essas mulheres.
Maria Figueiredo: Mas você falou uma coisa sobre o que é certo. Às vezes você acha que esse é o certo, porque é o que você aprendeu, mas a pessoa que você falou, teve outra referência. Ela já morou em outros lugares, ela já teve outros amigos, ela já frequentou outros ambientes e traz outra noção do que é certo. Acho que isso é um desafio para o Bassoli, por exemplo, porque, ao contrário dele, tem muito território que vai se construindo, vai nascendo pequenininho, aí ele vai construindo uma casinha aqui, o pessoal ajuda ali, se constrói de forma comunitária. O Bassoli foi outra situação, então entrar num consenso sobre o que é o certo é difícil.
Elisangela: No mesmo dia, você estava entrando numa torre, com 20 moradores, foi entrando todo mundo. Ninguém conhecia ninguém, e simplesmente a gente estava morando na mesma torre, cada um veio de um local.
Maria Clara: É mais repentino ainda. O Bassoli é muito mais particular. O Morro Doce, apesar de relativamente novo e constituído de pessoas que vieram de vários lugares também: como São Paulo e Nordeste, carregando também essa dificuldade de articulação, mas que foi se construindo e se consolidando ao longo do tempo entre os moradores a partir das necessidades que emergem no do dia a dia no lugar.
Partindo de territórios diferentes, com pensamentos diferentes, no começo tinham dificuldade para se unir e resolver problemas em comum, como é o exemplo do transporte. No passado, lá só passava ônibus na Rodovia Anhanguera, por fora do morro, faziam o caminho todo a pé para dentro. Até que um grupo de mulheres de lá, falaram assim: “então vamos fazer, vamos fazer acontecer”. Porque esperar todo mundo entrar em um senso comum, demoraria. Então, fizeram de um jeito que elas conseguiram, porque, algumas lideranças articularam para isso. Mas ainda assim o Morro Doce foi se construindo ao longo do tempo. O Bassoli foi do nada, veio uma galera, um dia só, parou aqui um caminhão e desceu um monte de gente.
Elisangela: É incrível, porque aqui a maioria estava recebendo o Auxílio Moradia. E quando a gente veio, teve gente que precisou de um outro auxílio, que até a Prefeitura entendeu isso, deu dois auxílios em vez de um só, para pessoa entrar no apartamento. Porque, às vezes, a pessoa veio sem geladeira, sem fogão. Teve bastante gente que veio nessa situação.
Falando de mim, eu vim grávida de cinco meses do meu filho, eu não tinha dinheiro nem para o piso. Quando a gente mudou para cá, tinha muita gente que passava necessidade, foi quando olharam para a gente e pediram para o caminhão do exército trazer comida. E eu grávida, de barrigão, ajudava, pegava a caixa, dava para as pessoas. Eu comia também. Depois, passou um tempo, começou a vir um ônibus trazer fruta e legumes para gente, eu estava na frente, também ajudando a distribuir para o condomínio. Sempre estava beirando para poder ajudar alguém. Eu fiquei cinco anos como responsável pela entrega de verduras, teve a Turma do Macarrão, empresários que se juntam para doar brinquedos e cesta básica. Aí, eu fiquei à frente disso também, todo ano eles vinham. Ali começou a minha história de ser conhecida por todo mundo, porque eu sempre estive no meio de todo mundo.
Maria Clara: Desde o começo dessas histórias, você já identificava algumas divergências e conflitos por causa dessa questão de território que a gente estava comentando? De não conseguir, organizar a galera direito?
Elisangela: Sim, porque você consegue alguma coisa e o povo acha que você é obrigado a conseguir aquilo. E não é por obrigação. Você conseguiu porque você tem contato, porque você tem amizade com certas pessoas que resolveram te ajudar.
Eu entrei como síndica em 2019. Durante a pandemia que começou em 2020, eu fui a primeira que peguei a COVID. Foi um período que eu parei com esses trabalhos comunitários.
Nessa época, tiveram muitas famílias que começaram a passar necessidade, porque a gente trabalhava fora e não podia mais trabalhar fora. Eu conversei com um pessoal que é amigo meu, eles criaram uma ONG, eles queriam me ajudar, sabiam onde eu morava. Eu ainda falei para ele: “Passando necessidade eu não estou, mas já que você está com uma ONG, ajuda o meu condomínio”. Ele falou assim: “é um desafio, mas a gente vai tentar”. Ele conseguiu arrecadar e veio trazer as cestas. Foram 160 cestas, vieram todas elas. Teve morador que realmente agradeceu muito porque não tinha o que pôr na panela, como teve morador que agradeceu e não pegou a cesta para dar para um outro que precisasse mais.
Mas eu acho muito gratificante, sabe, a gente ajudar as pessoas. A gente se sente mega bem de conseguir ajudar alguém, ou com uma fala, ou com um ombro, para a pessoa chorar, porque às vezes acontece muita coisa onde a gente mora, todo mundo precisa dessa fala, e às vezes não tem um parente perto, não tem um próximo perto, não tem uma mãe, não tem um pai, não tem uma irmã aqui perto para conversar. Tem muita gente de fora, gente da Bahia, tem gente do Nordeste, tem gente de um monte de lugar que te enxerga como uma pessoa boa para conversar.
E o que você falar para mim, acabou aqui. Se você voltar a conversar comigo e quiser tocar naquele assunto, eu vou falar, mas do contrário, não vou expor você. Tem morador que deve? Tem. Quem é? Não sei, não tem que ficar falando, apontando, fulano deve, esse fulano deve, não. Eu não sei a situação que está acontecendo com ele.
Maria Figueiredo: Porque querendo ou não, isso é uma atitude no intuito de construir essa relação de confiança. Eu acho que isso é uma característica de liderança comunitária porque você tem essa visão de que isso não vai ser bom para o território.
Elisangela: Vai acabar gerando confusão, porque a pessoa tem um carro bom e não quer pagar o condomínio, ela fica ali na barraca gastando dinheiro, mas não quer pagar alguma coisa. É igual a questão do Bolsa Família, ajuda muito as pessoas, só que se as pessoas tivessem mais direção na maneira de gastar o dinheiro dela, não tinha tanta gente em situação de vulnerabilidade assim como a gente tem.
Maria Figueiredo: Então, talvez seria uma questão de mais pessoas terem acesso a um lugar, assim como no Projeto Florescer, onde vocês se apropriam e tomam conhecimento dos seus direitos, um projeto que desenvolva uma educação financeira. Porque às vezes não é sobre a pessoa ser “desleixada”, mas não saber como administrar e organizar essa renda, aprender como usar esse dinheiro, para conseguir alimentar todos os filhos, para conseguir pagar o aluguel, etc., é importante.
Elisangela: Fazer uma geração de renda em cima daquele dinheiro, porque tudo que você vai fazer, tem que ter um começo. Então, se eu ganhar o Bolsa, com aquele dinheiro eu vou comparar meus potinhos, vou comparar a massa, vou fazer um bolo e vou vender bolo de pote. Com aquele dinheiro eu vou fazer um curso de manicure, de empreendedorismo, sobrancelha, estética, essas coisas assim, tem lugar que dá curso. Vamos lá fazer? Vamos. Em alguma coisa tem que ser boa. Se não for na sobrancelha, é na aplicação de cílio. Se não é na aplicação de cílio, você vai ser boa de fazer unha.
Maria Clara: Parte do território é a troca de conhecimento, né? Você ensina o que você sabe, você aprende o que você não sabe com o outro. E assim você vai construindo um território.
Elisangela: É por isso que o Florescer é tão importante e tão legal para a gente. Ele mexeu muito com a gente nesse sentido porque a gente atingiu lugares que jamais a gente acharia que poderia conhecer, como a Câmara Municipal. A gente foi lá conhecer a OAB, que é só de mulheres. Receberam a gente muito bem. A gente foi na Defensoria Pública conversar com quem trabalha lá. Eu não fui lá porque eu queria colocar algum caso na Defensoria. A gente foi lá para entender como é o acolhimento deles para com a gente, o que eles fazem. A gente foi no CEAMO [Centro de Referência e Apoio à Mulher], a gente foi na Unicamp, foi no CAISM [Hospital da Mulher da Unicamp]. O CEAMO é um lugar top, porque ele abrange cuidados de mulheres, mulheres que sofreram violência e é muito legal você saber disso, porque você pode apontar para pessoa: “se você for lá vai acontecer isso e isso, se você for lá vai ser assim e assim”. Você tem o conhecimento daquilo. Porque a gente tem direito e a gente precisa saber disso.
Maria Clara: Sim, você retorna para o seu território com conhecimento. Porque esses lugares são inacessíveis para periferia. Vocês ocupam e retornam para cá.
Maria Figueiredo: E muitas vezes a periferia fica sem saber. Porque se entende que o território de vocês é o Bassoli, como se vocês estivessem confinados nele e não pudessem ocupar para além dele. O exemplo de ocupar esses espaços que são públicos e de direito quebra com essa lógica.
Elisangela: Sim, como se o mundo da gente fosse só esse, mas tem mundo lá fora. Você tem direitos. Muitas vezes as pessoas passam por necessidades pois não conhecem seus direitos. Por exemplo, você trabalhou por um tempo e foi mandado embora e não recebeu nada? Vamos à Defensoria Pública. Liga lá, marca um horário para você ir lá conhecer. Vai lá na OAB, que as meninas atendem. Tem que ter uma maneira de ajudar a pessoa a conhecer e acessar seus direitos.
Maria Clara: Pensando no Projeto Florescer e na sua história com liderança, que conhece muitas pessoas, acho legal pensarmos sobre a confluência, que é um conceito de um quilombola, do Nego Bispo que é essa troca de conhecimento e influência como uma via de mão dupla, entre pessoas e territórios. Então, essa confluência que você tem com outras mulheres de outros territórios é uma troca. Por exemplo, às vezes, aqui no Bassoli, vocês estão mais avançados em articulações para conseguir uma coisa específica para uma necessidade. Em outro território, isso ainda não está avançado, mas eles conseguiram outras coisas. E aí, vocês vão trocando informações, trocando caminhos para resolver esse problema.
Elisangela: A gente pode articular para ajudar outras pessoas. Eu pergunto, eu mando mensagem. “Você não conhece alguém que faz? Você não conhece alguém que possa ajudar a gente nisso? Como é que a gente pode fazer?”. Eu tenho conhecidos até na prefeitura que mostram para gente qual o caminho que a gente tem que ir.
A gente tem um grupo dos síndicos também. A gente conhece alguém que está fazendo entrega de verduras e tem morador que precisa dessas verduras, a gente já indica para a pessoa se está procurando serviço, etc. É articulação mesmo. Não serve para você, mas serve para o próximo. Eu não sei como é que faz, mas tem alguém que sabe e vai explicar para gente como é que faz.
Maria Figueiredo: Fiquei pensando nessa confluência entre os conhecimentos como uma ajuda mútua para algo mais amplo que é o cuidado comunitário. Quando conhecemos o Projeto Florescer na PUC, uma professora nossa que estuda o trabalho do cuidado, observou que lideranças comunitárias exercem um trabalho de cuidado comunitário. Você, por exemplo, está pensando na comunidade o tempo todo: pegando doações de todo o tipo para se alguém futuramente precisar, você ter como ajudar. Com isso, penso sobre a importância do cuidado para um território e quem faz esse trabalho.
Elisangela: É muito difícil a gente abranger todos os que fazem isso. Eu falo de mim porque eu faço, eu gosto, é uma coisa que eu gosto. Se eu fosse construir um bairro, uma vila, um cantinho assim, com várias pessoas, como seria? Eu não saio do meu território. Eu queria muito arrumar isso aqui. Eu sei que não existe coisa perfeita, mas pelo menos que fosse ameno, no sentido de você ter um monte de prédio, tudo bonitinho, arrumadinho. Das pessoas serem mais próximas umas das outras, ter um senso de coletividade. Todo mundo vai descer, todo mundo vai limpar o condomínio. A gente ter uma escola, ter um CRAS no Bassoli. Não é nem questão de querer ser muito individualista. Porque aqui no Bassoli tem quase 10 mil pessoas. Tem território, tem cidadezinha que não tem 10 mil pessoas. Então quer dizer, a gente tem uma cidadezinha que se chama Bassoli.
Eu não tenho muito essa de me considerar uma liderança. Mas tem muita coisa que eu consigo fazer. Se a gente for articular, conversar com certas pessoas que tem entendimento e sabe das coisas, eu posso conversar. Eu te ajudo a fazer, no sentido de pedir. Não preciso ficar à frente no dia. Eu peço, eu ganho e trago para você. Está aqui, agora você faz. Eu não ligo de estar à frente. Se a pessoa quer ser líder e quer estar lá na frente, eu posso passar o meu conhecimento para você.
Maria Figueiredo: Eu acho legal a gente pensar num diálogo que tive no grupo de pesquisa que participo sobre o projeto coordenado pela minha orientadora, sobre como o cuidado deve ser considerado durante a jornada de todo trabalhador. Quem cuida do trabalhador? Ou quem está cuidando dessa trabalhadora? Porque ela não tem descanso. Quando ela chega em casa ela vai exercer o trabalho doméstico de lavar a roupa, fazer o jantar, etc. Quem cuida dessas mulheres? E eu fico pensando: o quanto de mulher se movimenta para fazer um território? Porque todas essas ações que você já fez para ajudar a sua comunidade, isso é tempo seu que você está gastando, pode não ser considerado trabalho, mas é o cuidado comunitário. E como o cuidado é muito feminilizado e naturalizado enquanto uma prática feminina, eu sinto que esse trabalho de mobilização e cuidado comunitário é também exercido por mulheres em sua maioria. O que você acha?
Elisangela: Eu penso nesse sentido. A gente como mulher é mais articulada. A gente consegue se virar: pôr a roupa para lavar, dar banho nas crianças, ocupar todas as bocas do fogão, tudo ao mesmo tempo. Então, como mulher a gente tem articulação, por isso, temos essa capacidade. Porque nós mulheres fomos criadas para ser ajudadoras. A Bíblia também fala isso.
Hoje não tem mais como sustentar o modelo em que o marido sai para trabalhar e a mulher fica cuidando. Está tudo muito caro. Então a mulher tem que ajudar na renda de alguma maneira. Ou é indo trabalhar fora, mas se não tiver quem fique com o filho trabalha dentro de casa mesmo fazendo alguma coisa para se manter.
Então tem muita mulher empoderada e na linha de frente hoje, mas muito por causa disso. Porque só os homens não estão dando conta. A questão dos homens também entra na questão do machismo, porque eles olham para mulher e pensam que ela nunca vai ser aquilo, e hoje elas estão chegando aonde elas querem.
Maria Clara: E essa questão de tantas mulheres exercendo o trabalho do cuidado e a questão sobre quem cuida delas se volta de novo para o território. Porque mesmo com tanta sobrecarga elas conseguem se ajudar. Ainda conseguem fazer uma rede, ainda conseguem ir para o projeto Florescer e conhecer outras mulheres e se cuidarem, né?
Elisangela: Sim. Sempre está ali criando métodos para estar se ajudando, e também para conseguir ajudar outras pessoas. Aqui tem umas que a gente pode pontuar, especificamente. As que mais fazem alguma coisa nesse sentido são as mulheres que chegaram no Florescer.
Na comunidade, ajuda-se algumas vezes, você consegue falar com elas, mas não é uma rede de apoio em que a hora que você precisar, eu vou lá na fulana para fulana me ajudar, você não pode contar com uma rede de apoio. Porque muitas vezes a mulher prefere não se mobilizar tanto pois aumenta a carga de trabalho dela também que já está sobrecarregada. Então, enquanto eu estou sozinha, eu faço uma coisinha ou outra, mas ao meu alcance.
Maria Clara: Nessa questão entra também a sobrecarga, porque muitas vezes a mulher consegue fazer umas articulações pequenas aqui, mas é uma sobrecarga de dar conta de casa, de trabalho, de ainda pensar no coletivo, no outro. Então, tomar a frente para fazer alguma coisa muito maior também já é muita sobrecarga. É um paradoxo, porque às vezes você não consegue ser uma rede de cuidado, uma rede de apoio, porque você está precisando muito de uma rede de apoio também.
Elisangela: Às vezes cuida-se tanto dos de fora e você esquece de você. Então, tem que ter um tempo para você também, tem que ter o seu tempinho. Nem que seja mais cedo ou mais tarde, mas tem que ter um limite. Tudo tem que ter um limite.
Maria Figueiredo: Penso que as coisas que conversamos vão se cruzando. Porque se as pessoas não têm o apoio de um lugar para terem cuidado, um lugar para deixarem os filhos, para poder aliviar um pouco a sobrecarga desse tempo de trabalho. Ter um lugar, uma rede que se articule quando está precisando de alguma coisa. E tudo isso faz parte de um território e tudo o que conversamos até agora constitui um território. Então, depois de tudo que a gente conversou, o que é território afinal de contas?
Elisangela: Para mim, o território não é nada mais nada menos do que pessoas convivendo dentro de uma certa sociedade, entre os bairros, as comunidades, e tentando cada uma se manter, sobreviver. Tem pessoas que conseguem sobreviver ajudando outras, tem pessoas que conseguem sobreviver só se ajudando. Sem mexer com ninguém no cantinho dela, que às vezes você vê aquele morador não fala com ninguém, mas também não pede ajuda, não pede nada. Ele é ele sozinho. Mas ele está dentro do nosso território. Todos respeitando a dignidade, a vida do outro.
Maria Clara: Sim, são as relações. O território é essa grande comunidade, essa grande rede de articulação, de contato, de ajuda, de rede de apoio, de acolhimento, de amizade, que a gente vai construindo.
Elisangela: Tem amizade que fica. Às vezes a pessoa muda e você ainda tem contato com a pessoa. É uma amizade gostosa. Eu pretendo mudar. Eu queria sair de síndica, mas agora eu não sei se eu consigo. Eu queria muito que alguém entrasse como síndico aqui no condomínio, mas as pessoas não querem. É muita responsabilidade. O que tem aqui dentro, meus cômodos, meu banheiro, é meu. Agora, da minha porta para fora, já entra o conjunto dos moradores. Então não tem como falar assim: “a torre é minha”. É uma questão de consenso. E tudo dá falação. Então fica difícil.
Maria Clara: Vamos conversar sobre a questão da identidade de território pensando sobre como o Bassoli enquanto território que tem pessoas de vários lugares desde 2011. Será que esses 15 anos construíram uma identidade um pouco mais consolidada do que é ser morador do Bassoli? Alguma característica? Algum costume?
Elisangela: A característica maior do Bassoli ainda é de “coisa errada”. Todo lugar que você for que estiver falando sobre o Bassoli, é sobre algo errado. Tem muitos moradores bons, mas infelizmente a maioria é errada. Porque ao invés da pessoa fazer algo bom para ajudar o próximo ela faz só para ela. “Eu não quero ajudar ninguém, eu quero ver o meu. O meu carro é bom, o meu apartamento é bom, o resto não me importa. Se a minha vizinha ali da frente passa fome, se o meu vizinho do lado está passando dificuldade”. São poucos que pensam de maneira a ajudar, são bem individualistas.
Maria Figueiredo: Isso me faz pensar sobre a disciplina que tivemos esse semestre sobre patrimônios. Normalmente, quando pensamos em patrimônio, pensamos em uma estátua ou algo assim, mas patrimônio também é algo que não é material, mas uma prática que também pode ser considerada patrimônio. E a gente foi percebendo como ter um patrimônio, uma prática, que seja algo como o grafite, por exemplo, que tem bastante aqui. Ou seja, uma prática que é imaterial, a galera que está compartilhando essa mesma prática gera uma rede de solidariedade, de conscientização, de ajudar o outro, porque você se identifica com a pessoa.
Elisangela: Sim, é onde você vai criando uma afinidade com a pessoa.
Maria Figueiredo: Então, como você está falando que o que você observa como característica do território, a galera mais individualizada, talvez tenha relação com a ausência ou não dessas práticas. Por isso eu queria te perguntar se tem alguma prática que algum grupo compartilha junto. Um ambiente e momentos de convivência organizado de forma autônoma pelos moradores: jovens, mulheres, etc., com uma festa, um baile, que os jovens se juntam e fazem?
Elisangela: Não, não tem isso. Aqui tem um povo que se junta, fica ali embaixo bebendo, aí o outro chega do seu trabalho, encosta e bebe, aí de repente sai uma briga e não fica bom.
Maria Clara: Será que é porque aqui é tudo meio novo? São 15 anos. Tem tantas pessoas diferentes de tantos lugares, será que foram se fechando durante os anos por isso também?
Elisangela: Então, o meu pensamento nesse sentido, é que aqui tem muitas pessoas que são evangélicas. Então a maioria que fica para os bares, ficam bebendo é gente que às vezes não tem uma religião. Então não tem muita união, a não ser que for para um culto religioso.
Maria Clara: Mas então você sente falta de um senso de comunidade aqui.
Elisangela: Sim, bastante. E a gente precisa.
Maria Figueiredo: Às vezes está associado até às festas, mesmo que faça barulho, a galera está ali socializando. São esses momentos informais que conectam as pessoas também.
Maria Clara: A gente deixou uma reflexão sobre qual é o território que você escolhe deixar para o seu filho ou para as próximas mulheres do Bassoli?
Elisangela: Eu queria que fosse uma coisa diferente. É lógico, porque quem vai usufruir disso aqui, amanhã ou depois. Pois independente de eu estar aqui, ou não, eu sempre vou ser Bassoli.
Mas, nesse sentido de querer deixar, eu queria que as pessoas conseguissem fazer coisas melhores. Não pensar muito só em si própria, mas sim ter empatia pelo próximo, porque o que eu não quero para mim, eu não quero para o próximo. Então, se as pessoas tivessem mais empatia de se pôr no lugar do outro, eu acho que o mundo seria um pouquinho melhor.
Eu sei que não vai ter solução, no mundo que a gente vive, não tem mesmo. A tendência é piorar e a gente tem que fazer de tudo para tentar viver da melhor maneira possível. E viver da melhor maneira possível é o quê? Não mexer com os vizinhos; não ficar sobrecarregando você também com conversa alheia dos outros, mesmo assim, quando alguém precisar de ajuda, você está ali para arrumar ajuda e apoio.
ABNT (NBR 6023)
APA (7ª ed.)
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